domingo, 3 de outubro de 2010

Mundo oculto


Ainda lembro-me do teu cheiro e dos nossos corpos juntos deitados em uma cama de motel, poucas horas de calor e fogo intenso inapagáveis, nossos línguas a percorrerem os corpos um do outro, as unhas adentrando em carnes suadas e quentes, teu gosto na minha boca e teu cheiro de pecado adentrando em minhas narinas, a música ao fundo toca Kid abelha e nos excita ainda mais, fazendo nossas mãos agarrar-se a cabelos, numa fissura que causa dor e prazer, as palavras ternas são aos poucos trocadas por caricias brutas e palavras lascivas, que tornam a intensidade do prazer ainda maior, dois corpos em uma única sintonia, dois corpos tomados pelo pecado da carne e do prazer, sussurros aos poucos se tornam gritos e gemidos, a busca incessante para dar prazer faz o sexo virar amor, nossos prazeres se completam e caímos exaustos abraçados.
Já passa do meio dia e nossas horas estão por findar-se, e nesse momento só você que me importa, não quero te deixar ir, só de te imaginar na cama de outro homem uma agonia toma conta do meu corpo, nenhuma palavra é necessária para acalmar-me apenas teu beijo já me conforta, partimos para um banho, regado a caricias e beijos ousados, quero você só pra mim, mas não toco no assunto, apenas me deixo levar pelo prazer que é te ter em meus braços, os minutos se passam na velocidade da luz e meu telefone toca me trazendo para a realidade, já estou atrasado e terminamos nosso banho livrando-se de eventuais perfumes um do outro, muito contrariados trocamos nosso último beijo aquele dia, aquele beijo tinha o mesmo gosto do primeiro, e sempre quando me lembro sinto teus lábios a tocarem os meus.
Mundo real, tarefas reais, pessoas reais, e meu pensamento sempre em você, os beijos que recebo nem de perto se comparam aos nossos, os abraços não são tão aconchegantes quanto os teus, os olhares não são verdadeiros, as horas passam a passos lentos totalmente diferentes quando estávamos juntos há pouco tempo atrás, o dia finalmente acaba e deito-me em uma cama que não sinto o mesmo aconchego que teus carinhos, eu olho para o lado e só consigo ver você, mas ao voltar à realidade percebo que o beijo e o corpo que se entrega a mim não é o teu, entendo o significado de sexo e amor, e depois adormeço apenas pensando que o mesmo se passa com você, tenho vontade de escutar tua voz, mas se me arriscar a isso poderia te perder para sempre então me conformo apenas pensando em nossos momentos únicos e inesquecíveis.
Os dias se passam e o destino não nos deixa nenhuma brecha para nos vermos e nos tocarmos, e como pura ironia somos colocados frente a frente acompanhados de nossos amantes reais, e nada mais nos é possível do que discretas trocas de olhares e toques sutis ao passar os temperos de mão em mão, teu olhar verde penetra dentro do meu corpo me deixando louco para te agarrar e tirar tua roupa sem pudor nenhum, o vermelhos das tuas bochechas e tua mordida no lábio inferior não me deixa dúvidas que não é só o vinho que te deixou assim, sei que teu prazer escorre por entre tuas pernas, e meu corpo pulsa de desejo e tesão por você, o cheiro do teu perfume no ar é uma tortura como um pedaço de carne colocado a poucos metros da jaula de um leão, tua roupa me desafiando a te atacar como um animal sedento, me atiçando, provocando-me quando beija ele olhando para mim.
Meu olhar te persegue por todos os lugares, como um felino persegue sua presa, louco para te tocar, estudo as possibilidades, o mundo real não me deixa saída me prende e me sufoca, terminada a janta, te ajudo com a louça apenas com o intuito de te roubar um beijo, nada mais consigo do que um leve toque nas tuas costas e sentir o cheiro da tua pele por poucos segundos, as horas passam e tenho que ir embora, tratamos nossas breves formalidades e na hora de nos despedirmos deixamos transparecer um abraço mais demorado e mais intenso, sem querer revelamos o nosso mundo, logo quando entro no carro o inferno toma conta do meu mundo da mesma forma que quando você fecha a porta, voltamos ao mundo real, com pessoas reais e para fugir basta apenas fechar os olhos pensar em você e lembrar do nosso mundo oculto.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Ju Moraes

sábado, 2 de outubro de 2010

Papiro e pena tinta



Palavras, ha as palavras, se eu conseguisse expressá-las através da fala, eu com certeza seria outro, embora a minha mão se deixada levar por minhas emoções ainda assim traduza fielmente meus sentimentos, sejam eles de qualquer tipo e classe, honestos ou ousados, na minha imaginação as fronteiras são apenas as mentes de leitores sedentos por pecados ou então por algum eventual deslize que eu deixe transparecer, nem tudo o que a caneta transmite para o papel, é impresso ou grafado, alguns dos mais variados poemas, textos ou contos logo ao surgirem são dados como natimortos, e antes mesmo de serem relidos e corrigidos são apenas rasgados ou deletados para sempre.
Uma obra que se parece com a vida, que tem roteiros escritos pelo destino e com passar do tempo adapta-se a várias vidas e personagens variados, em um livro não caberiam todas as minhas histórias, nem saberia em que gênero classificá-lo, a caneta nas minhas mãos percorre kilometros de linhas para trazer as mais variadas sensações, apenas algumas simples invenções são o mecanismo ideal para despertar sentimentos variados, através do papel ou papiro, e com uma simples caneta ou pena tinta, as palavras são colocadas num instante do pensamento para as letras, para assim perpetuarem novos pensamentos e assim sucessivamente continuarem a divagarem no mundo inteiro.
Meus pensamentos não são todos meus, alguns tem uma pitada de Sócrates, Einstein, Beethoven, João’s e Maria’s por ai afora, cada um deles faz parte da minha construção, até mesmo meus inimigos que tentaram me derrubar contribuíram de alguma forma para meu crescimento, intelectual, espiritual e moral, embora esteja vestido numa carapaça opaca e desgastada, por dentro ainda palpita um coração luminoso e cheio de vitalidade.

Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Eduardo Gonçalves

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Pecado confesso


Confesso que já pequei e tenho certeza que tu já pecaste, pecar é totalmente viciante, a todo momento o pecado a importunar, seja ele em carne, aroma ou pensamento, imaginar lábios a se tocarem, peles a se esfregarem, o aroma de corpos tomados pelo êxtase, o pecado de sentir prazer, de gostar, de ser ousado, de satisfazer-se, o pecado de ser diferente, de surpreender, o pecado da carne, do nascimento, da doença, da modéstia, da pretensão, do luxo, do ego, o pecado de ser pecador.
O pecado de imaginar o pecado, da oração a noite que omite a maioria dos pecados do dia, da consciência de saber do pecado e se isentar das culpas de prazeres ofertados pelo pecado. Apenas o pecado de ser pecador ao derramar lágrimas ao nascer e de partir sem dizer desculpas e também deixar lágrimas em faces que ficaram, o pecado dos ressentimentos do passado em caixas de fotos e lembranças, sou um pecador num mundo de perdões, num mundo de salvações, de escolhas, de uma infinidades de caminhos, um simples pecador que apenas gosta de pecar.
Pecados, pecados, pecados por todos os lados, pecar sem intenção, é pecado pecar por prazer? Pecar junto com outro pecador aumenta o pecado? E pecar por amor, é a mesma penitência? Pecar para perpetuar a espécie? Pecar só em pensamento? E pecar sem perder a inocência? Pecar por omitir para não causar mal nenhum, é pecado? Pecar por não orar a Deuses iguais? Pecar para não mais pecar? E quando o pecado é só praticado contra o pecador? Porque herdei o pecado de Adão?
Lamento ser um pecador, mas o prazer que sinto cometendo meus pecados nenhuma penitência pode abalar ou me convencer a mudar meus conceitos, sou um pecador confesso e cheio de dúvidas, por falar em dúvidas...
...e você já pecou hoje?
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Eduardo Dias Gonçalves

sábado, 11 de setembro de 2010

Para o amor a melodia é pretexto



Embalado ao som de um reggae, lembro de ti várias e várias vezes, duvida? “ Não te trago flores porque elas secam e caem ao chão, mas te trago meus versos simples, mas que fiz de coração....” a saudade do beijo que eu nunca tive é maior do que as sensações que criaram meu mundo, não sei que amor é esse e nem mesmo se é amor apenas sei que meu lugar não é onde nasci e me criei, também não tenho certeza se é ao teu lado e junto de ti, mas sinto tua falta, nos beijos e carinhos alheios que eu recebi nesse tempo, ao deitar-me para dormir penso como seria bom te ter do meu lado juntinho do meu corpo, dentro do teu abraço, minha vida toma rumos inconfundíveis e inesperados, hoje estou aqui a escrever amanhã e criar a história das nossas vidas, hoje como autor amanhã como leitor, nada mais é importante do que meu sentimento, quando me dou conta estou aqui pensando em ti, e uma musica do Charlie Brown me vem a mente, com uma letra perfeita para meu momento, nela consta a afirmação: “Longe de você eu enlouqueço muito mais, eu vivo na espera de poder viver a vida com você, vejo pessoas sem saberem para onde o mundo vai, eu conto as horas para estar com você...” , bem ao certo não tenho a certeza apenas sei que com certeza tentarei te fazer a mulher mais feliz desse mundo.
As melodias que surgem me levam a ti sempre, no pagode o refrão é:
“Quando a gente se encontrar tudo vai ser tão perfeito, eu quero te curtir demais e eu vou aliviar esse aperto no meu peito, que vontade não dá mais, se no telefone é bom imagine aqui bem perto eu sentindo teu calor, sem medo de ser feliz, com o coração aberto...”
no forró:
“Com você enfrento mil barreiras, estou pronto pra recomeçar porque eu te quero amor...”,
Eu mudo a música e lá me vem você, fixada numa letra de Black Eyed Peas :
“Whoa, I spent my time just thinkin', thinkin', thinkin' 'bout you, Every single day, yes, I'm really missin', missin' you..”
no sertanejo:
“Tem que ser você, Sem por que, sem pra que Tem que ser você Sem ser necessário entender...”,
me vou mais além, num dance house, Akcente e Inna:
“I dream of you, And it feels like i`m flying, I think of you when i`m smiling, I`m lost into your eyes, I sing our song...”
E assim sucessivamente penso em ti a todo momento,
Numa letra pop na voz de Leoni:
“Já conheci muita gente, gostei de alguns garotos, mas depois de você os outros são os outros, ninguém pode acreditar a gente separado, eu tenho mil amigos mas você foi o meu melhor namorado...” e independendo do gênero musical você esta sempre em meus pensamento, então logo surge a nossa música:
“Inspiração dos meus sonhos, não quero acordar, quero ficar só contigo, não vou poder voar, porque parar pra refletir se meu reflexo é você, aprendendo uma só vida, compartilhando prazer, porque parece que na hora eu não vou agüentar, se eu sempre tive força e nunca parei de lutar, como num filme no final tudo vai dar certo, quem foi que disse que pra estar junto precisa estar perto, pensa em mim que eu to pensando em você...” e eu fico aqui apenas lembrando o que nunca aconteceu, lembrando nossas noites juntos na alma e separados pela distância, escrito por um coração entregue a paixão, publicado para meus amigos.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Eduardo C. Gonçalves

domingo, 8 de agosto de 2010

O alquimista



Procuro uma porção exata de ingredientes mágicos, são ervas raras e especiais algumas não são vistas a olhos humanos nem podem ser colhidas por simples pessoas, todas elas possuem funções místicas, são porções exatas para efeitos precisos, que curam todo e qualquer mal espiritual ou físico e se utilizadas para maldades podem fazer qualquer gigante tombar sem motivo aparente nem deixar vestígios ou pistas, as receitas não são contidas em páginas nem cartas, apenas são passadas de gerações para gerações por milhares de anos, e todas elas permanecem inalteradas com toda a sua originalidade. Muitas delas não precisam de grandes caldeirões nem rituais de sangue e cânticos, são pensamentos e dons que misturados criam efeitos às vezes considerados mágicos, milagres, destino ou então sobrenatural, são lendas e contos narrados com veracidades e detalhes impressionantes que por milênios são escutados por aprendizes e crentes no mundo inteiro. Um elixir capaz de resolver uma fragilidade humana que tombou grandes reis ou lideres, que corrompeu nações, que deu fim a inúmeras vidas e mudaram destinos, um antídoto para febre humana que somos contagiados, independente de religião, cor, sexo ou classe. Quero a dose exata para aniquilar a cólera que se hospeda dentro de mim, quero a cura do que não pode ser curado, quero livrar-me da dor que não mata, do que fere sem deixar marcas, quero descobrir a fórmula exata, a combinação certa para sair do pesadelo que me aterroriza durante noite e dia, procuro a bruxa, curandeiro ou mago capaz de dar respostas ao enigma que persegue a inutilidade humana desde o surgimento da vida na terra, quero a poção certa para sair do ciclo da doença, que como um câncer toma conta e enfraquece o corpo, quero sentir o feitiço ou magia a limpar minha alma dessa fétida doença, quero voltar a ter a inocência de menino, para então começar um novo ciclo sem medos nem ressentimentos, e ser capaz de ver a beleza em coisas simples, mas no meu intimo acredito achar a fórmula certa para meu mal tão impossível quanto transformar chumbo em ouro.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Eduardo Gonçalves

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Reflexão de um canceriano

Esses dias a navegar na internet, li uma frase de um grande amigo que me deixou por alguns minutos perplexo, na frase dele constava a seguinte afirmação:
“Não de valor as coisas que ficaram para trás, pois sentir falta não as trará de volta.” E por breves momentos uma avalanche de pensamentos me inundou a minha mente, a ponto de me deixar tonto e por inteiro confuso então fui do passado ao futuro em fração de segundos, e quando pensei que encontraria as respostas, me senti totalmente frustrado e ainda mais desmotivado pelo simples fato de repensar situações que te mostram a vulnerabilidade humana, que por dentro da concha a carne é bem macia e tenra, que por maior e mais forte que sejamos ainda assim somos fracos e tolos e mesmo se escondendo na lama sempre tem um ou uma filha da puta pra te achar e te jogar dentro de uma panela com água fervente, apenas pra saborear o que temos de mais importante.
Sem pensar que mesmo que vivamos na lama ainda assim temos direito a viver a vida por mais medíocre que ela seja e depois da captura somos jogados dentro de um saco com outros companheiros, sendo tratados apenas como mais um numero, mais uma conquista, somos vistos apenas como um servo dos prazeres de paladares alheios, como uma iguaria degustado por bocas muitas vezes imundas, que nada se assemelham as nossas humildes residências, mas se o sofrimento fosse apenas o que nossos duros corpos sentem antes de morrermos á panela com água fervente, mas não, nosso sofrimento se estende por horas a fio, por longas e exaustivas viagens dentro de sacos amontoados e imundos, sem contar a nossa exposição aos idiotas que dali a poucos minutos estarão a comerem nossos corpos, e que dão risada de nossos gritos de dor ao sentirmos a água fervente a cozinharem nossos corpos na própria casca.
Um a um somos mortos lentamente e dolorosamente, para suprir o prazer de alguém indiferente para com os outros, mas tudo bem faz parte da vida nascer, crescer e morrer e se eu vou ter que morrer por ti que assim seja feita tua vontade, mas nunca esqueça que uma vez dentro de teu corpo, minha alma inútil fará parte da tua vida para todo o sempre, e tu vai se lembrar para sempre do meu gosto e do meu cheiro, e quando estiveres a comer a minha carne macia e se regozijar do último prazer que eu estou te proporcionando aproveita bem, e fica avisada(o) que dali a poucos minutos quando eu estiver sendo digerido por tuas entranhas, vou te proporcionar à maior caganeira da tua vida, te fazendo sentires as mais profundas e dolorosas dores, te deixando com o cú em chamas e que venha acompanhado de vômitos intensos acompanhados com sangue e aqueles líquidos biliáticos amargos e ácidos, e que tua garganta que me engoliu depois de mastigar meu corpo inúmeras vezes tenha dores horríveis, que te impeçam de falar e sentires outros prazeres, então sua ou seu filho da puta você vai se lembrar para sempre de mim, e se der ou não valor, ainda assim não vai ser motivo para ter de volta, então depois dessa breve reflexão pensei: FODA-SE!!!
Eduardo Dias Gonçalves

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um jantar a dois



Entre ingredientes e medidas na busca do acerto, do tempero ideal apurando o paladar ao extremo, são ervas finas misturadas a carnes com variados cortes, salsa, cebola, tomates e uma infinidades de opções, uma alquimia que beira a paranóia com colheres e porções, infinidades de “segredos” dos mais simples aos mais refinados, um fio de azeite de oliva cuidadosamente derramado com cuidado sobre ingredientes onde cada elemento tem a sua ordem, o fogo na temperatura exata, o vinho a marinar a carne fazendo apurar o gosto da refeição, as facas a cortar minuciosamente ervas e legumes com perfeição e exatidão, uma constante na busca de agradar e causar sensações inigualáveis nos sentidos alheios, o aroma no ar fazendo salivar, as cores dos alimentos a embelezarem ainda mais o ritual, o som dos elementos a ferverem e fritarem confrontando todos os sentidos, as mãos a lavarem cuidadosamente os ingredientes, enquanto em outro cômodo da casa aproveitas teu banho relaxante e quente, com pétalas e velas com aroma de sedução, sobre a cama um conjunto de lingerie preto, com detalhes que ficarão perfeitos em você e um botão de rosa vermelho dando uma idéia do que a noite promete.
A mesa feita com requinte e velas, os talheres colocados lado a lado numa simetria perfeita, as flores do campo a descontraírem o ambiente, a música no fundo dá o tom do conto e te deixa ainda mais a vontade, teus sentidos a flor da pele com tantas sensações misturadas, meus sentidos ainda mais aguçados por conta dos ingredientes e da minha imaginação, trato cada detalhe com atenção e carinho, meu coração bate acelerado e somente acalma ao te ver ali parada me olhando, teu vestido faz minha imaginação trabalhar a todo vapor, são imagens e sons que passam em minha cabeça tornando o momento excepcional, arrasto tua cadeira como um cavaleiro e te trato humildemente como um servo trata a sua rainha, te sirvo o vinho tinto com delicadeza em uma taça de cristal, os detalhes vão aos poucos revelando-se lentamente um a um, tua alegria fica estampada em tua face através do teu sorriso, o vinho começa a ter seu efeito e tuas maças do rosto já começam a avermelhar-se, o brilho dos teu olhos ofusca a penumbra do momento.
Coloco nossa refeição a mesa, decorado com enfeites cuidadosamente elaborados, nossa conversa descontraída se vai por horas a fio, os sabores, os aromas e as cores não teriam o mesmo sentido sem tua presença, tua beleza completa o ambiente e eu ali apenas a te apreciar, sonhando acordado com os momentos que estão por acontecer, aprecio cada detalhe em você, nossa história sendo escrita através do tempo sem canetas nem folhas de papel ficando apenas guardadas na memória, o vinho e os olhares ávidos acendem o fogo e os beijos são inevitáveis, o começo de mais um capitulo a ser criado, as mãos a percorrerem o corpo alheio com toques hora agressivos hora delicados, as roupas a serem despidas numa rapidez como se o mundo fosse acabar dentro de alguns minutos, corpos a se atirarem contra paredes sendo tomados pelos desejos, palavras sussurradas delicadamente no ouvido complementadas com beijos ardentes no pescoço, corpos seminus numa corrida insana em busca de dar e receber prazer, as últimas peças de roupas são tiradas lentamente provocando e aumentando ainda mais a expectativa, as caricias por incrementarem ainda mais a situação.
A noite se passa e torna-se insaciável e maravilhosa, as quatro paredes escondem detalhes picantes, aos poucos os corpos findem por saciar-se e entrarem em sono profundo e pleno, e fico a te observar deitada em meu peito, aliso teus cabelos cuidadosamente com caricias que te levam ao imaginário e fazem-te sonhar com os momentos vividos por nós dois, acabo por adormecer abraçado em ti, para dali a algumas horas despertar e te ver dormindo e te acordar com beijos e flores e mais um dia passar do teu lado planejando como vou te surpreender novamente.

Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Rafaela Esteves

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Momentos

Nos dois sentados na grama a contemplar o horizonte, fazendo promessas que poderão ou não se tornar real, mergulhados numa utopia simultânea, entre beijos e abraços sonhamos com o realizar dos sonhos e torcemos para nada dar errado, dois enamorados trocando juras de amor eterno, o mate que nos aquece e escuta nossas conversas como um padre escuta seus confidentes, há se aquela cuia pudesse falar, tenho certeza que contaria sobre nossos segredos íntimos e nossas palavras provocativas cheias de segundas intenções, teu cabelo claro a esvoaçar junto com o vento brando que sopra um ar gelado nos obrigando a apertarmos nossos abraços, o sol que nos aquece com raios tímidos te ilumina fazendo teu sorriso ficar ainda mais radiante, nossas confidências mutuas são mais sinceras e cheias de mistérios, nossos segredos mais secretos são aos poucos confidenciados um a um, com detalhes que ás vezes causam ciúmes.
Confesso que muitas vezes não consigo entender o que falas porque fico encantado em teus lindos lábios, gosto de olhar tua boca a pronunciar palavras e esqueço de ouvir, é como se o mundo parasse e todo o resto se silenciasse, e quando me chamas a atenção e me perguntas se estou ouvindo, não contenho o riso e saio do meu mundo paralelo para escutar tua voz incomodada por eu não estar sendo participe dos teus assuntos, tento explicar e para calar-me me dá um beijo sutil que me silencia na hora, o mate quente dá pretexto para ficarmos colados lado a lado, os pontos finais entre uma conversa e outra são marcados por beijos e sorrisos, gosto de olhar nos teus olhos como um lobo, te observar cada gesto e adoro quando mexes no teu cabelo, quando balanças e novamente o prende deixando tua barriga a mostra, me fazendo imaginar as coisas mais loucas e surpreendentes que farei contigo.
Palavras são ditas através dos olhares revelando uma cumplicidade que mais parece telepatia, afinidades semelhantes fazem nossas ações serem simultâneas, nossos abraços são carregados de ternura e desejo, nossos perfumes se fundem no ar criando uma fragrância inigualável, a paisagem apenas emoldura tua beleza, teus olhos a me hipnotizar e teu colo a me dar aconchego, tuas mãos acariciam meus cabelos e quando fecho meus olhos sou carregado para o um lugar celestial, não é exagero quando toco teu rosto suavemente para ter certeza que és real, aos poucos adormeço sentindo apenas o toque suave dos teus dedos percorrendo meu rosto, minha boca e meu pescoço para logo sentir teus lábios como a me provocar para despertar de um sono pleno e vistoso, ao abrir os olhos vejo teus traços delicados e suaves contrastando tua pele clara.
Tenho em meus braços a mais bela criação de Deus, a mais delicada das mulheres, única e indescritível, não existem palavras para te descrever de tamanha beleza que carregas contigo, a bela paisagem como cenário torna o nosso momento inesquecível e acolhedor, não quero que o dia termine nem quero ficar longe de ti, o relógio insiste em lembrar do real e acaba por querer nos separar, mesmo que por breves sejam os momentos, os minutos parecem horas e se passam vagarosamente, nos abraçamos demoradamente e o beijo de despedida é dado incompleto, apenas para deixar um gostinho de quero mais e com a vontade de voltarmos a nos ver com o pretexto de completar o incompleto e ter teu abraço novamente, nossa despedida é breve, e como dois apaixonados passamos o dia contando os minutos para completar o que ficou pendente.
Eduardo Dias Gonçalves

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vinho tinto


Uma taça de vinho, o fogo na lareira e o pensamento a voar pelos ares nos mais variados lugares, são lembranças e sonhos que se mesclam e se tornam diferentes realidades tal qual como o gosto de beijos e o calor de corpos, o vinho apreciado por minhas papilas tem o mesmo gosto de um beijo o qual não lembro de que boca provei, o calor da lareira é o mesmo das noites de amor e sexo intenso em que meu corpo se pôs a nu, o etílico que me relaxa e embriaga mistura o passado e o futuro em sensações antagônicas, corpos macios em mãos ásperas, lábios recebendo mordidas suaves e línguas percorrendo peles aflitas de desejo, os cheiros e as palavras são ditas num tom hora perverso hora carinhoso, o tempo percorre a velocidade da luz, o vinho revelando Bacos e Afrodites em corpos tomados pelo pecado, realizando os mais íntimos desejos.
Na fusão de realidades e sonhos, confrontados a cada gole de um tinto suave e perfumado, não mais existem paredes, e ser observado sem nenhuma veste ou pudor já não é importante, pelo contrário ainda mais excitante e sublime, os lençóis cobertos de pétalas e o fogo a arder em chamas na lareira, um cenário termântico que faz aflorar os instintos mais selvagens e primitivos da natureza, o prazer da carne já não pode mais ser abdicado ou vencido, corpos nus esfregando-se querendo adentrar-se um no outro, alucinados de tanto prazer, as mãos a percorrerem o corpo alheio ferindo-o levemente e carinhosamente, o ímpeto subjuga e transforma o racional em irracional animal, os beijos ousados e pretensiosos levam ao delírio e o prazer chega ao êxtase, os sons já não são mais sussurros ou gemidos ao pé do ouvido, mas sim gritos de palavras lascivas, os corpos nus se regozijam de dor e deleite, as línguas ávidas a dar e sentir prazer se despem de pudores ou repulsa, o suor exalando uma fragrância natural torna o momento cada vez mais único.
A taça passa de mão para mão e os lábios que a tocam são os mesmos que trocam beijos quentes e sedutores, beijos que se completam e se tornam viciantes e embriagantes como o vinho tinto, a taça é passada delicadamente pelos lábios acompanhada de um singelo beijo no canto da boca apenas a provocar e atiçar novamente o fogo no corpo alheio, seguido de um olhar sensual e pecaminoso para então ressurgir um incontrolável desejo, entre caricias ousadas e toques profundos, os dedos percorrem caminhos que novamente levam ao delírio, causando impressões de estar em contato com os deuses, respirações ofegantes e ritmadas são abafadas por gemidos de prazer simultâneo, onde os corpos em chamas terão chego a plenitude estrema e cairão abraçados um ao outro, exaustos e embriagados de vinho e prazer, para então adormecerem como brasas na lareira e eu ali apenas como um expectador, cairei em sono profundo misturando sonhos com realidades.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Rafaela Esteves

sábado, 17 de julho de 2010

Deixa ?


Teu sorriso há esse sorriso que me encanta e faz-me delirar, será que um dia vou te encontrar? Fico nervoso só em pensar que pode não ser real, procuro um bom motivo para não estar lá e nenhum deles me faz hesitar, quando chegar o dia, deixa eu te encontrar te surpreender e te fazer rir, deixa eu apenas te observar e te contemplar, deixa correr o risco de te dar o último beijo, o último abraço, deixa eu ter a chance de te fazer a mulher mais feliz desse mundo, deixa eu sentir orgulho de te ter em meus braços, deixa eu apenas ser verdadeiro, deixa eu narrar nossa história no teu ouvido, quando eu te ver deixa eu sorrir, pois seria impossível não estar feliz ao teu lado, deixa eu sentir medo de te perder, deixa eu te beijar até ficares sem fôlego, deixa eu olhar no azul dos teus olhos e me imaginar nos mais belos lugares do planeta, deixa eu ficar embriagado com teu perfume, mesmo que seja por alguns minutos.
Eu faço tudo errado, mas gostar de ti é a coisa mais certa que fiz em toda a minha vida, o meu maior acerto, declarações sem beijos são as mais sinceras e com beijos mais intensas, deixa eu sonhar no teu abraço, deixa eu me hipnotizar com tua beleza, deixa eu ouvir tua voz e me sentir bem, deixa eu me divertir contigo, deixa eu acariciar teus cabelos, deixa eu te entreter, deixa eu ler tua mão, deixa eu te alegrar, deixa eu te curtir, deixa eu ser apaixonado por ti pelo resto da vida, deixa eu ler o livro que tu mais gosta, deixa eu escutar a música que te tira desse mundo, deixa eu te deitar no meu colo e te fazer carinho, deixa o nosso tempo se tornar inesquecível, deixa eu te guardar na memória para sempre, deixa eu caminhar de mãos dadas contigo, deixa eu te amar, deixa eu apenas tentar e se nada disso der certo...
...Então me deixa.

Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cândido Gonçalves

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A flor mais bela


Não sou um bom jardineiro, para ser sincero a única coisa que eu plantei e vi crescer foi um pé de feijões, acho que todo mundo já teve seu pé de feijão na vida, colocado no algodão sob a janela, lembro de ter visto ele crescer então quando ele estava pronto e forte o bastante, plantei ele num canteirinho da escola, mas fora isso nunca cultivei essa habilidade de tratar com plantas, mas sempre apreciei as flores, de todos os tipos, cores e aromas, gosto muito da delicadeza das pétalas,tantos anos colhendo flores e nunca vi nenhuma igual nem em beleza nem em fragrância, algumas de tão delicadas em pouco tempo murcharam outras me causaram algumas picadas por seus espinhos, mas todas foram muito belas e coloriram minha vida.
São espécies variadas, todas com suas pétalas em diferentes formas e cores, mas ao caminhar pela estrada da vida, sem perceber encontrei um belo exemplar, tem a beleza de uma orquídea e um perfume de jasmim, sua beleza é indescritível e sua forma com certeza a mais bela dentre todas as flores que colhi, nunca fiz comparações, mas esta era totalmente indescritível, totalmente incomparável, única e com tantos adjetivos juntos que eu não conseguia descrevê-la, fiquei perplexo e confuso, não é preciso entender de flores para apreciá-las, mas tenho certeza que esta não se encontra em nenhum catalogo nem floriculturas, apenas pelo simples detalhe de ser impossível classificá-la.
Confesso que tentei continuar caminhando, mas depois que á vi não consegui mais parar de apreciá-la, sua beleza me deixava tonto, suas pétalas tinham um tom tão delicado que me transportavam para outra dimensão, seu aroma me embriagava e nada mais importava, mas o tempo insistia em passar e meus pés inquietos me forçavam para longe, queria ter um jardim de inverno só para ela, regar, arar a terra a sua volta e apreciá-la todos os dias, durante várias horas por dia, o sol se pôs e a imagem dela ficou no meu pensamento, uma melancolia tomou conta do meu corpo, pois queria poder ter a chance de apreciá-la novamente, mas tinha a certeza que seria impossível aquela linda flor não ser notada.
Dias se passaram e meus pés me levavam para lugares distantes, meu corpo continuava em frente, mas meu pensamento ficará kilometros longe, em todos os jardins que eu procurava nada me chamava tanta atenção como aquela bela flor que encontrei a beira da minha estrada, vi muitas flores lindas e cheirosas, mas nenhuma como aquela, tinha cada vez mais a certeza que ela era única, mesmo se eu voltasse atrás não tinha certeza de encontrá-la novamente, então temia o pior imaginava alguém a pegando e a arrancando do solo, com brutalidade e sem nenhuma sensibilidade, com o intuito de apenas colocá-la em um vaso sobre uma mesa, sem nem ao menos perceber que flores arrancadas ao passar do tempo murcham e acabam por perdem suas pétalas e cores apenas deixando uma leve fragrância no ar , como nos dias em que estava viva.
Mas essa bela flor ainda estava lá como no dia em que a vi pela primeira vez, minha alegria ao vê-la novamente era estampada num sorriso, agachei-me e comecei a apenas analisá-la por inteiro, notando suas formas e imperfeições, sentia-me radiante e com vontade de tocá-la, mas nada fazia alem de apreciá-la apenas e sentir sua vibração, suas sensações me deixavam louco e confuso, seu perfume inundava meus pulmões e pensava em inúmeras possibilidades de como poderia ter ela só para mim, as gotas de orvalho em suas pétalas a deixavam ainda mais maravilhosa, não conseguia mais sair de perto dela com receio de deixá-la desprotegida, tão bela e tão delicada, e realidade se mistura a fantasia e eu já não sei se estou dormindo ou acordado, apenas sei que quero construir um jardim digno de merecer essa bela flor e que ter ela só para mim, seria como aprisioná-la em um pequeno vaso.

Eduardo Dias Gonçalves

sábado, 3 de julho de 2010

Loucos sãos

Amor, paixão, ciúme, ódio, ilusão, desilusão, mentiras, verdades, fracasso, desespero, apego, desapego, afeto, carinho, promessas, desafio a alguém me provar que nunca teve nenhum desses sentimentos, seja pobre ou rico, bonito ou feio, grande ou pequeno, homem ou mulher, hétero ou homo, enfim alguém que não esteja nessa mesma arca, que não busca na vida o par ideal, a cara metade, a alma gêmea como que se gêmeos tivessem a mesma alma, se nem gêmeos univitelinos tem os mesmos pensamentos ou as mesmas características emocionais, haverá de existir almas idênticas? Sou um romântico por natureza, apenas mais um ser rastejante desse planeta, apenas mais um a engrossar filas de consultórios psicológicos e psiquiátricos, tarô, festas, ambientes sociais enfim atrás da mesma ilusão coletiva, na mesma arca no mesmo ciclo.
Sexo, drogas e rock em roll contagiam da mesma maneira e fazem o mesmo mal que amores e paixões, duvida? Me diga um apaixonado que não ficou burro, tonto, atento ao telefone, MSN, visitando o Orkut dele(a) 58 vezes por dia, que quando atende o telefone fica falando horas esquecendo os amigos ou o que tem que fazer, que dança alegre e contente mesmo não sabendo dançar, que canta mesmo não sabendo cantar, me diga quem por amor nunca passou fome, rastejou, se humilhou, fez sacrifícios, se pintou de palhaço, fez cartas kilométricas de amor eterno, acreditou em promessas ditas antes de um beijo, saciou-se com miragens, entregou-se ao sexo esperando que seria amor, drogas criam dependência física e psicológica, e o tal amor? Não cria dependência? Podemos viver sem amar?
Sábios são os monges, que fazem votos de não terem relações matrimoniais nem se entregarem aos prazeres da carne, se eu nunca sentir o gosto é bem pouco provável que eu sinta falta, assim como coração de rã, algum dia você acordou com vontade de comer coração de rã? Se nunca provou não sentirá nem vontade nem falta, monges trabalham o desapego das coisas diariamente, pode até parecer bobagem, mas nascemos sãos e nos tornamos doentes, e acreditamos que nossa doença é parte da vida, que sofrer por amor é natural, que com o calor de beijos podemos fazer promessas mesmo sabendo que não queremos cumpri-las, temos prazer em usar corpos alheios e esquecer que nossos corpos também estão sendo usados, que desilusões fazem parte do ciclo independente do caminho que optarmos, e que por mais que procuramos sempre chegaremos ao mesmo final independente das opções, são relacionamentos criados em imagens virtuais, tudo a velocidade da luz com inúmeros gigabytes de informações, não temos mais tempo não podemos ficar parados, temos que correr beijar inúmeras bocas e sentirmos variados corpos, para enfim achar a alma gêmea, a metade certa, o par ideal.
Para depois de alguns anos, começar novamente o ciclo apenas com personagens e cenários distintos, mas com o mesmo roteiro, e quando nossos corpos não serem mais úteis morreremos agarrados e obrigados a manter nossa última escolha, que pode não ter sido a certa nem a que passamos toda a vida a procurar, nossas lágrimas já não existem mais porque as deixamos lá atrás no passado distante, em relacionamentos anteriores que de nada serviram alem das experiências do que não se deve fazer num relacionamento eterno, o qual já é tarde para começar, ainda sou um romântico incurável que sofre com dores horríveis no coração, confesso que queria ter sido um monge para não ter amado nem ter feridas, queria morrer são e não tomado pela dependência do amor, tenho lapsos de monge mas vivo em um show de rock, no mesmo ciclo que todos na mesma arca, queria não ter provado o gosto da maçã nem o efeito da droga, então tento me conformar e apenas aproveitar ao máximo o gosto de beijos e o cheiro de corpos, esperando encontrar a alma gêmea.

Eduardo Dias Gonçalves

terça-feira, 18 de maio de 2010

O poema de um beijo

Dia destes escutei um poema, não era de Drummond ou de Shakespeare nem tinha composições organizadas e compassadas como Chopin ou Beethoven, e começou silenciosa com um abraço depois um beijo, então foi apenas eu sentir o toque dos seus lábios, o cheiro do seu hálito e nossas línguas se tocarem, para logo nossos corpos pegarem fogo e o desejo nos tomar conta fazendo nossos sentidos se misturem e saírem do controle, nossas mãos percorrendo cada centímetro de pele, o cheiro, o calor, a fusão de sentidos, no fundo aquela melodia nos excitando, instigando-nos a cada vez mais sair do controle, a chuva que cai sobre nossos corpos se evapora e ameniza tanto fogo, aproveitando o máximo como se fosse o último dia de nossas vidas, o toque na tua pele faz surgir um turbilhão de sensações, a maciez dos teus cabelos anestesia os meus dedos, teu cheiro me embriaga e faz aflorar meus desejos mais selvagens.
Nessa troca de saliva e desejos o tempo não passa apenas de relógios, sentimentos dos mais variados se misturam, já não sei se são os meus ou os teus que eu sinto agora, apenas sei que nossa sintonia encontra-se perfeita, como se todos os planetas estivesse alinhados, a lua que ilumina nossos corpos te torna ainda mais bela, a chuva que molha nossas roupas é a mesma que instiga nosso desejo de livrar-se delas, minhas mãos percorrem lentamente e carinhosamente teu corpo, te provocando sensações de prazer incontroláveis, tuas unhas arranham minha pele me deixando cada vez mais irracional, cada vez mais fora de controle, nossas peles tornam-se únicas e nossos beijos cada vez mais sedentos e apaixonados.
Esse calor que toma conta da gente aumenta cada vez mais a cada toque, nossos corpos molhados de chuva e de suor só aumentam as sensações de prazer, no meio de tanta excitação é impossível ser racional, e emoções apenas são sentidas a todo o momento, milhões delas ao mesmo tempo e a todo instante, nossas almas são a mesma, são beijos ardentes e caricias ousadas, meus toques te enlouquecem e te levam a outra dimensão, palavras são pronunciadas no teu ouvido, e o calor da minha voz te incendeia, fazendo teus desejos mais secretos aflorarem, minha pele exala instintos que nunca tinham sido sentidos, são caricias feitas por mãos macias em peles sedentas de amor e desejo, um poema que foi criado pela alma e escrito com corpos, que não pode ser impresso em folhas de papel, mas pode ser apenas ouvido por corações apaixonados.
Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Espírito guerreiro


Surgi de um ventre pagão que não tinha nem crenças nem credo, fui colocado ao mundo como apenas mais um soldado assim como tantos não vieram de famílias nobres nem distintas, mas carrego brasões que poucos se igualam ou são capazes de afrontar, nasci criança e quando ainda jovem me tornei soldado e ao passar do tempo virei nobre, recebi minha primeira espada forjada com o melhor ferro do mundo, com entalhes precisos e luxuosos, afiada como uma navalha, tive inúmeras batalhas e muitas derrotas, mas nunca desisti de lutar, muitas vezes tive medo e nem por isso hesitei em voltar atrás, porque guerreiros não temem a morte e sim não terem combates para serem travados, a vida de um guerreiro não sabe manter-se acomodada e sim sempre em frente desbravando e conquistando cada vez mais, as vezes conquistando a mesma coisa várias vezes, um guerreiro não é burro ou tolo, ele conhece inúmeros poemas e canções, e no calor das guerras entoa melodias capazes de encorajar qualquer jovem idiota a brandir espadas e perfurar corações alheios.
De muitos separei suas almas de seus corpos, outros defendi com minha lealdade nata, fiz muitos julgamentos precipitados e por eles paguei altos valores, recebi muitas moedas de valores diversos, carrego comigo minha armadura e na bainha uma espada afiada, hoje sou muito mais forte do que uma dúzia de anos atrás, mas ainda tenho algumas dezenas de anos para aprender, quando entro num campo de batalha sou como um animal selvagem defendendo os seus semelhantes, sou liderado apenas por um estandarte de pano tingido com sangue e ervas, o fio da minha espada percorre todas as direções dilacerando o que ousar passar a minha frente, no meu escudo carrego meus ideais e meus sonhos, muitos deles se acabaram por golpes de espadas e lanças inimigas, mas os poucos que ainda tenho me motivam sempre a continuar a luta.
Hoje sou apenas um nobre guerreiro a pé, pois meu cavalo sacrificou-se por minha pessoa, meu agradecimento a ele chegará na hora que eu for derrotado definitivamente e quando eu não tiver mais forças para erguer meu escudo e minha espada, então o verei novamente para nosso último galope, e esperarei o inimigo estocar meu peito e me afogar em meu próprio sangue, baixas acontecem todos os dias, mas quando são nossos companheiros tratam-se de perdas, e a cada perda que tenho faço um risco na parte de dentro do meu escudo exatamente na altura dos meus olhos, como um manifesto meu de que onde eu estiver, sempre estarei lutando por eles, carrego por baixo da malha de cobre que protege minha pele, pertences das pessoas que amo, não creio em Deus mas entre as minhas lembranças encontra-se um crucifixo amarrado em uma tira de couro assim como outras lembranças.
Na minha última batalha recebi alguns golpes brutais, e deste tive feridas sérias, mas nem por isso separei-me da minha alma, das lesões além de cicatrizes herdei algumas dores e pesadelos durante a noite, hoje estou fora de combate, mas meu sangue ainda ferve como prestes a entrar em um novo combate, não sei onde estou nem como estão os meus soldados, jurei nunca mais voltar, mas quando acordei estava no velho vilarejo que nasci, continuava tudo igual, o destino me pregara mais uma peça, não lembro dos golpes que me adormeceram, mas vejo no meu corpo as marcas que elas me causaram, não entendo o que os seus deuses querem me mostrar e me ensinarem, estou atordoado louco para enfrentar novos exércitos.
Estou preso em uma cama, sem armadura e sem armas, minha espada foi trocada por um cedro de madeira, minha marcha não é a mesma, meu escudo tornou-se pesado demais para meu corpo suportar, minha resistência se assemelha a de um velho esperando a morte, ainda tenho meus ideais e meu espírito de guerreiro, meu corpo não é mais o mesmo, cada dia que passa sinto como se fosse uma derrota contra eu mesmo, quero voltar a sentir o cheiro de sangue e suor dos soldados, quero aparar golpes em meu escudo e dilacerar inimigos, gritar e esbravejar aos quatro ventos, quero dividir almas de corpos, tingir a grama verde com sangue e suor, quero voltar a lutar.
O tempo que me enfraquece em dúvidas e pesadelos é o mesmo que fortalece minha alma e recupera meu corpo, porque uma alma de guerreiro insiste em não se desprender do corpo independente de quantos golpes o atingirem, então acredito que se minha alma ainda move meu corpo é apenas porque ainda tenho grandes combates a travar e muitas pessoas a defender, enquanto meu coração for capaz de bater e meu punho segurar minha espada, não vou nunca adiar uma batalha, quero morrer num campo de batalha pelo fio de uma espada e nunca esperando a morte vir ao meu encontro me tocar com sua mão em meu ombro direito, pelo simples fato de que um guerreiro deve sempre morrer lutando.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cris Valente

sábado, 1 de maio de 2010

Conto de fadas versão realista

Era uma vez uma linda princesa, ela era bela e formosa e dona de cabelos claros, portava um vestido branco com detalhes em vermelho, cantava melodias doces e encantadoras, todos no reino invejavam essa bela princesa, logo quando a vi foi amor a primeira vista, desejei essa bela princesa, ganhei jogos e batalhas para ter o direito de me casar com ela, passou-se alguns anos e eu finalmente consegui, havia recebido a mão dessa bela princesa e jurado amor eterno, algum tempo passou, como lei da vida as coisas acabam envelhecendo e com nós não foi diferente, a bela princesa que casei começou a aparentar o tempo vivido, mas junto com o tempo veio o desencanto e a realidade acabou se mostrando.
Sempre quando acordava ao lado dela tinha a impressão de que ela estava mais peluda, o hálito dela já não era o mesmo que quando nos casamos, seus dentes estavam cada vez mais afiados, suas mãos já não eram mais delicadas e pequenas, quando nos casamos ela possuía olhos com uma ternura inigualável, mas que hoje pareciam de um animal selvagem, o cheiro dela exalava sangue, e as melodias doces e encantadoras se tornaram rosnados apavorantes, em pouco tempo a minha tão amada bela transformou-se em fera, e o amor transformou-se em medo.
Deitei com uma princesa e acordei com um lobo selvagem, sedento por alimento, frio e calculista, um assassino terrível e cruel, antes de matar suas vitimas ele as persuadia e as fazia confiarem que ele apenas tinha boas intenções, matava suas presas lentamente e cruelmente, se regozijava com os gritos de dor e lágrimas derramadas, tornava a morte lenta e dolorosa apenas pelo prazer adentrar por entre seus olhos famintos, meu conto de fadas acabou se transformando em uma história de terror amedrontadora, fez meus sonhos se transformarem em pesadelos, vi meu mundo ruir aos poucos e fui rapidamente do céu ao inferno.
Certo dia pressentindo minha morte, resolvi fugir porque temia morrer agonizando no meu próprio sangue, passei tanto tempo com esse assassino do meu lado que não percebia o perigo que eu corria, passeava por belos bosques e vales com um selvagem me observando cada passo, calculando o melhor momento para abater-me, sempre estive na posição de presa fácil e nunca me dei de conta, na minha visão não conseguia distinguir aquele lobo da bela princesa que eu conheci, várias pessoas tentaram me avisar, mas nunca dei a devida atenção, então antes de eu achar o momento certo para salvar minha vida, fui atacado por esse animal repulsivo, lutei muito para me desvencilhar das garras da fera e só depois de muito lutar acabei saindo do meu pesadelo.
Sai com marcas profundas pelo corpo inteiro, de muitas feridas levei muito tempo para me recuperar, tive órgãos vitais dilacerados pelas garras de um animal sanguinário que para mim parecia uma bela princesa, muito tempo se passou e as feridas se fecharam e a pele ficou com algumas marcas, assim como o meu órgão vital mais importante e apesar de ferido não parou nunca de bater, esse animal ainda continua a procurar suas vitimas e dilacerar seus órgãos, mas pouco me importo com isso, porque esse conto de fadas teve seu final e não passa apenas de mais um livro que nunca mais será aberto por mim.
Eduardo Dias Gonçalves

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O pássaro e eu

Hoje pela manhã ao acordar vi um lindo pássaro, o observei durante alguns minutos e pude notar sua beleza encantadora, ele alçava vôos fantásticos e precisos, cantava num tom compassado, suas cores eram vibrantes e me hipnotizavam, era impossível tirar os olhos dele não conseguia prestar mais atenção em nada apenas nos vôos daquele pequeno pássaro, me sentia livre e leve, me alegrava ver ele ali pairando no ar, estava extasiado por estar voando, eu sentia o gosto na boca de liberdade, era um gosto levemente adocicado com um toque salgado, meu corpo estava tão leve que eu não sentia mais o solo aos meus pés e por instantes esqueci-me completamente que tenho pés e não asas.
Desde pequeno sempre quis voar, queria sentir a sensação que estar lá no céu proporciona no corpo, tenho medo de altura então acho que nunca vou conseguir voar, pois sou apegado ao chão, um dia uma linda mulher dona de um sorriso lindo disse-me que a sua maior alegria seria quando eu aprendesse a voar, tentei inúmeras vezes voar,apenas para agradá-la mas nunca consegui nem mesmo planar, meus pés são lentos e pesados, sentia um pouquinho de inveja ao apreciar aquele pássaro lá no céu, se eu conseguisse aprender a voar, seria arrojado, faria manobras arriscadas e desafiadoras, mas então me olho no espelho e percebo que não passo de um ser apenas caminhante e voar nada tem a ver comigo.
Um pássaro sem céu é exatamente igual a uma caminhante sem chão, tenho certeza que o pássaro também me inveja da mesma forma que eu o invejo às vezes, queria saber voar assim como aquele pássaro gostaria de caminhar, confesso que em todas as vezes que tentei voar que sempre acabei machucado ou então frustrado, e cada vez mais me convenço de que minha especialidade é apenas caminhar, tentei ser o que eu nunca fui apenas na tentativa de fazer uma ilusão se tornar realidade, nunca vou saber voar nem cantar como aquele pássaro, sinto muito por não ter alegrado a mulher do lindo sorriso, sei que fracassei por não ter ao menos planado, mas agradeço ela ter me motivado a tentar, pois a cada queda tentando alçar voou, meus pés ficaram cada vez mais rápidos e minhas pernas mais fortes.
Tentei ser um pássaro e nada consegui apenas o desprezo e a indiferença dela, o seu sorriso se transformou e não teve mais o mesmo brilho de antes, poucos centímetros saí do chão e nada parecido como um voou consegui, apenas um grande salto que não me levou a lugar nenhum, desisti de tentar voar e conformei-me com minhas habilidades natas, hoje já não invejo aquele belo pássaro com suas belas cores e seus belos vôos, o aprecio da mesma maneira que me olho no espelho e vejo minha face de ser um caminhante, posso chegar no mesmo lugar que aquele pássaro apenas pode ser que eu leve um tempo maior, mas ainda assim sem saber voar chegarei onde aquela mulher afirmava que eu nunca colocaria meus pés, mesmo não passando de um ser caminhante.
Eduardo Dias Gonçalves

domingo, 25 de abril de 2010

Letras e passos


Sou tão apegado ao passado que às vezes quero esquecer o presente e nem pensar no futuro, não sei o que vou fazer daqui a dois minutos ou dois anos, mas tenho certeza do que fiz há dois minutos ou dois anos atrás, sei que minha maior preocupação hoje é reescrever o passado da simples forma de viver intensamente e da forma mais verdadeira, quero apenas viver o real, o palpável, o suficiente para reescrever minha história, pesos e ressentimentos aos poucos vão se desprendendo das minhas costas como um saco de areia furado, quanto mais caminho, mais leve esse saco se torna, sei que a areia dele nunca se esgotará, quanto maior meu cansaço menor o peso do saco de areia que carrego. Os pequenos grãos que deixo para trás nesse caminho não são contados como uma perda de bagagem, mas sim como uma referência do caminho que percorri para chegar onde estou hoje.
Às vezes me sinto cansado e penso em desistir, são tantas letras e tantas palavras, não sei o lugar que devo chegar, minha vida é escrita a caneta que não se deixa rasurar, nem borracha nenhuma pode apagar sem deixar vestígios no papel, várias vezes me perdi, mas sempre me achei, não nego meu medo de me perder novamente e nunca mais voltar, posso partir sem dizer adeus ou então sem agradecer, simplesmente por querer reescrever o que já foi escrito, e o que borracha nenhuma pode rasurar sem deixar marcas, não me preocupo com tempo, pois não passa de linhas preenchidas numa página em branco.
Meu corpo é como uma caneta que vai percorrendo esses caminhos da vida como uma bela caneta desliza suavemente numa folha em branco, minhas letras não são desenhadas com perfeição, nem respeitam as linhas da página, mas tento escrever assim como caminhar o mais reto possível, conforme o tempo se passa mais belas se tornam as letras e mais firmes ficam meus passos, aos poucos reescrevo o meu passado , agora as rasuras são menores assim como a areia do saco as minhas costas, meus passos são mais precisos como o contorno de minhas letras, ainda não sei o final da história que estou reescrevendo, nem o destino que meus pés me levam.
Minha letra agora é mais firme e meus passos mais delicados, meus dedos doem ao segurar a caneta e a bolsa as minhas costas já não é tão pesada, mas o cansaço faz meus pés doerem, a dor dos pés e das mãos me deixam sem animo para caminhar e escrever, olho para o horizonte e nada vejo assim como o terço final da minha página, nenhum dos dois tem um final, e a única coisa que me faz continuar é a sensação de ter chego ao destino e poder ler o final da história, não tenho idéia de onde vou chegar e nem se terá um bom final, apenas continuo a caminhar e escrever.
Acredito que ainda tenho muitas páginas em branco para escrever e muitos kilometros para percorrer, quero tornar essa grande caminhada um belo conto com um final se não belo ao menos gratificante, a areia do saco as minhas costas ainda escorre e marca meu caminho, sinto-me perdido na jornada, assim como nas minhas palavras, não sei se vou conseguir voltar ao foco ou então à estrada principal, mas continuo a caminhar e escrever. Ainda não reli minha história nem voltei ao lugar de onde parti, pois meu destino final ainda não sei bem como vai terminar, tenho medo de não conseguir suportar a dor dos meus dedos e assim não terminar de escrever o último parágrafo, assim como não chegar onde meus pés cansados insistem em me levar.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de : Graziela Sasso

Abraço

Quero dar-te um abraço, quero enlaçar meus braços em volta do teu corpo e te apertar forte, ficar por vários minutos apenas te apertando e te sentindo junto a mim, não vou te pedir para ser recíproco comigo porque tenho certeza que não iras resistir à tentação de um abraço, um simples gesto que possui uma energia gigantesca capaz de carregar instantaneamente qualquer alma cansada, capaz de trazer forças de um jovem a um velho, ou então de transformar um covarde em um guerreiro, apenas um abraço é capaz de amolecer qualquer coração amargurado, sinto falta de te dar um abraço.
Ainda lembro-me das sensações do teu abraço, aquelas sensações que me deixavam leve e confortável e me faziam dormir, do cheirinho de colo e do calor dos nossos corpos, quero aquele passado novamente, quero aquela troca de carinho entre a gente, gostaria de te propor um simples acordo, queria apenas fazer uma troca, uma simples troca de abraços por alguns minutos e só, nada mais do que um simples abraço, aquele que nos dávamos quando éramos próximos, ou então quando nos consolávamos, poderia ser até o do tipo de alegria, mas e se nenhum desses ainda restou entre nós, que seja apenas um abraço de partida.
Os bons momentos passaram os maus também, e é verdade que muitos deles foram esquecidos com o tempo ou então de certo enterrados, mas ainda restou à lembrança daquele abraço que me contagiava, boas lembranças elas são e bons abraços eram aqueles, nas noites de solidão sinto tanta falta daquele abraço que tento me consolar apenas abraçando o travesseiro, busco teu cheiro nele e não o encontro, é realmente verdade que desisti de voltar a encontrá-lo, mas não posso negar que ainda sinto falta dele.
Ainda tenho comigo as boas lembranças do teu sorriso acompanhado de um abraço, como era bom te ter ali, te dar proteção e trocar energias, pelas lembranças posso até sentir como se fosse real, ainda me lembro de como que eu te abraçava no inicio, eu era duro e sem jeito, mas sempre intenso, depois daquele abraço deitava em teu colo e enquanto você mexia no meu cabelo adormecia sentindo teu cheiro, ainda acordo a noite assustado com os más lembranças, e para acalmar-me apenas abraço o travesseiro e imagino novamente aquele abraço, pequeno e carinhoso.
Hoje compreendo que nossos abraços pertencem a outros corpos e que nunca mais se encontrarão, então acabo por chorar, mas não com lágrimas de mágoas ou ressentimentos, mas lágrimas de não ter aproveitado melhor o teu último abraço, aprendi contigo como é bom abraçar, mas ainda não deixo-me ser abraçado, me sinto estranho em outros braços, não sinto as mesmas sensações que tinha quando você me abraçava, não sei se eram verdadeiras e sinceras, mas mesmo assim ainda procuro em outros corpos a medida do teu abraço, não sei exatamente o numero dele, apenas sei que tem uma medida pequena e que carrega um lindo sorriso.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de Cândido Gonçalves

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Retratos do amanhâ

Ontem estive revirando coisas velhas e inúteis, achei velhos brinquedos, ferramentas antigas, caixas de sapatos cheias de documentos, revistas, jornais, mas o que mais me chamou a atenção foi uma velha caixinha de metal, estava totalmente empoeirada e um pouco enferrujada, fora de finos biscoitos um dia e agora carregavam velhas fotos, algumas em preto e branco outras em tons de sépia, parecia ter passado alguns anos na prateleira desse velho armário, ali imóvel guardando lembranças de um tempo que jamais voltará, mas que revela histórias que se repetem com leves distorções ao passar de gerações;
Atrás de algumas delas, datas e escritas de lugares, pessoas, viagens, enfim de passados vividos, não me vejo em nenhuma delas nem reconheço nenhum lugar que essas belas fotos monocromáticas revelam, logo lágrimas me escorrem pela face e apesar de estar olhando fotos antigas vejo nelas o futuro, vejo meu rosto com as marcas do tempo, não sei direito quem são as pessoas, apenas vejo meu rosto estampado ali, corro para o banheiro e me olho no espelho, minha pele carrega leves marcas de expressão, mas como pode ser possível? A pessoa nas fotos é exatamente igual a minha, vejo nos olhos dele o mesmo olhar que possuo, olho atrás do retrato leio alguns rabiscos, nada me é familiar exceto a data de 1962, não sei o porquê de apenas a data me ser familiar.
Continuo a explorar a velha caixa de metal, no meio de tantas outras acho outra foto com meu rosto, mas numa época que era muito jovem, com estatura de menino, mas o olhar ainda era o mesmo, atrás a data não correspondia a minha idade atual estava confuso e nostálgico, o passado tão distante estava ali me mostrando o futuro, avisando-me que o tempo passa e não volta mais, apenas fica nas boas lembranças e nas ações tomadas hoje, minhas lágrimas ainda correm pela minha face e fazem meu coração bater descompassado e rápido, então sentado ao chão com as fotos espalhadas em minha volta, examino cuidadosamente o meu passado, vejo erros terríveis e acertos perfeitos.
Meu choro parece não ter fim, lembranças me inundam a alma misturando sentimentos, não entendo as imagem que passam diante dos meus olhos, o presente se mistura ao passado e faz eu me sentir ainda mais vivo, minhas ações de hoje não desfazem as do passado e tampouco me tornam alguém melhor hoje, mas me mostram que posso mudar o rumo delas, nunca vou ser um exemplo a ser seguido, mas posso ser um dia lembrado por alguma ação, minhas qualidades são natas mas mesmo assim ainda tenho muito o que aperfeiçoá-las, algumas simples fotos do passado me transmitem a realidade de que passado, presente e futuro estão tão intimamente ligadas que apenas formam uma única história de vida.
Essas fotos do passado apesar de antigas me ensinaram uma lição importante do futuro, que meus pais sempre me alertaram, mas nunca dei ouvidos. Então uma velha caixa é capaz de me impor verdades que sempre foram colocadas a minha frente através de simples fotos antigas, então olho para meu futuro vivido no passado e tenho oportunidade de ver o que deu certo e o que não deu, tenho uma chance de mudar o rumo das minhas ações e manipular o futuro, para quem sabe um dia ser lembrado por boas ações, assim como fez meu futuro no passado, ou então meu futuro no presente, complicado de entender? Simples, olho para meu pai hoje e me vejo amanhã e para me ver mais além é só olhar as fotos de meu avô, pois eles são o meu passado, presente e futuro independente de gerações.Eduardo Dias Gonçalves

terça-feira, 20 de abril de 2010

Meu porto seguro


Sinto-me perdido na imensidão desse mar, estou à deriva procurando um bom lugar para ancorar e construir meu porto seguro, mas tenho consciência dos perigos de escolher o lugar errado, não posso construir num pântano nem em cima de areia, meu navio carrega fotos e cartas de portos que passei, carrego algumas lembranças que ficaram para trás e que nunca foram esquecidas, algumas delas foram responsáveis por grandes naufrágios, mas deles todos escapei com vida e aqui estou a contar a vocês, que por mais que eu tenha cruzado mares e oceanos, enfrentado tempestades e ondas terríveis, ainda permaneço a procura de um bom lugar para construir meu porto.

No horizonte vejo “terra a vista”, não tenho nem idéia dos perigos das terras que vou aportar, mas pelo que sinto gostaria que fosse minha moradia, vendo rapidamente noto que é um lindo arquipélago que possui uma bela ilhota ao seu lado, me parece fazer parte da costa apenas com uma superfície de água separando-as, minha aproximação é lenta, não nego que tenho medo de descer âncora e nunca mais partir, minha vida foi sempre navegar e acredito ser um marujo muito novo para aportar definitivamente, a vista é linda e encantadora, o perfume de suas flores traz uma sensação de bem estar, com um clima aconchegante é impossível não querer aportar.

Ao adentrar nessa belíssima ilha, começo e descobrir que alguém já houvera aportado ali, vi alguns danos e cicatrizes de marinheiros que deixaram suas marcas, mas que simplesmente sumiram ou então deixaram belas jóias para trás, não sei nada do terreno que estou adentrando, mas não tenho vontade de voltar para meu barco e partir, não sou inconseqüente então avanço devagar, não sinto medo pelo simples fato de estar fascinado com um possível lugar para construir meu porto, ainda não tive contato com nenhum nativo, mas adoraria conhecê-los pois tenho certeza que são interessantes, apenas pelo fato de preservarem essa bela ilha e sua ilhota.

Tantos mares e oceanos naveguei e é justamente próximo ao porto que construí meu navio e que dei meu primeiro adeus, deixando meu passado para trás e jurando nunca mais voltar, que encontro essa linda ilha que me deixou sem vontade de continuar explorando outros possíveis lugares, para quando chegar a hora aportar definitivamente, não quero apenas acampar e assim que clarear o dia levantar âncoras e zarpar para nunca mais voltar, nem sou um pirata que invade e saqueia o que lhe for conveniente, mas sim um marinheiro que quer apenas construir seu porto num lugar seguro e que se compromete a guardar com unhas e dentes o seu refúgio de qualquer mal que possa acontecer.

O luar dessa grande ilha é esplendoroso, me entorpece e através de seu reflexo na água e possível ver detalhes que muitos marinheiros presenciaram mas poucos entenderam a grandiosidade de sua beleza, seu perfume é embriagante carregando tons de bergamota e hortelã, estar nessa ilha traz uma sensação de bem estar e uma leveza na alma, me sinto a vontade pois essa ilha e sua ilhota assim como eu e meu navio, passamos toda nossa vida apenas cercados por água, ainda não sei se esse vai ser o meu verdadeiro porto seguro, mas com certeza sei que é uma ótima escolha.

Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

O caçador de sonhos


Sei que sou um garoto e que um dia serei homem, mas minhas virtudes são grandes como um gigante e fortes como um centauro, não tenho mais medo pois carrego comigo lições de grandes mestres, não conheço todos os atalhos mas sempre chego aonde devo estar, sou um caçador de sonhos e vivo a andar por estradas íngremes e penhascos sinuosos, as estradas podem parecer um tanto quanto assustadoras, mas as paisagens são as mais belas.
Percorri milhares de kilometros sempre a pé, nas mãos um cajado feito de cerno de lei para auxiliar na minha peregrinação e me escorar nas horas de cansaço, alem de uma velha bolsa nas costas com um pouco de água e carne seca que me trazem energia para caminhar muito e descansar pouco, carrego comigo uma faca e um barbante para fazer as armadilhas dos sonhos, para caçar sonhos é preciso muitas virtudes e determinação é a mais essencial delas, as armadilhas tem que serem cuidadosamente preparadas, pois os sonhos são extremamente rápidos.
Para um bom caçador não é preciso barbante ou faca para apanhá-los, eles carregam todas as armas necessárias dentro de si, eu como sou apenas um garoto passo alguns dias com variados mestres, aprimorando minhas técnicas, minhas habilidades como caçador não são extraordinárias, mas são ousadas apesar de imprevisíveis porque nem sempre funcionam, mas se funcionarem um dia com certeza serão capazes de capturar ótimos sonhos.
Conheço muitos grandes e velhos mestres, mas foi com um pequeno e jovem que aprendi a minha melhor técnica, com ele que adquiri a minha melhor arma a virtude da paciência, ela sempre esteve comigo, mas com o passar do tempo foi se escondendo dentro de minha pessoa, para ser um bom caçador a observação é um quesito importantíssimo, e uma boa observação requer muita paciência, quando somos muito jovens observar e ser paciente são habilidades natas de nosso ser.
Aprendi com esse jovem mestre que antes de saber de sonhos, aprimoramos nossas técnicas natas de caça, fortalecemos nossas virtudes de paciência e observação e aos poucos começamos a caminhar, vagarosamente e desastradamente então quando uma queda nos acontece, nossa virtude da paciência se torna fundamental e se faz presente, logo observamos como fazem os outros e continuamos a dar nossos passos sempre em frente, sem saber que nossos pais nos preparam para sermos grandes caçadores, meu pequeno mestre não possui mais do que três anos de idade, mas me ensinou técnicas que levei anos para perceber.
O medo pode ser farejado a kilometros de distância e observo que meu jovem mestre não parece se intimidar com nada que acontece em sua volta, então aprendo que quando temos nosso espírito jovem o medo não passa de apenas uma sensação, que pode ser minimizada ou agravada dependendo de nossa observação, quanto mais firmes são nossos passos para mais longe caminhamos e mais corajosos se tornamos para caçar sonhos, mas a peregrinação só esta pronta para começar após nossas virtudes estarem prontas para serem colocadas a prova, e nossa aptidão de observar esteja aguçada.
Olho para as minhas mãos e vejo marcas do tempo já não sou mais um garoto, e então decido olhar para trás e vejo um grande caminho percorrido com meus próprios pés, sinto meu cajado me ajudar mais do que antes a continuar a caminhar, na velha bolsa as minhas costas ainda tenho a carne seca e um pouco de água, já não carrego mais uma faca e barbante, minha visão tornou-se aguçada como uma águia e observadora como um puma, minhas virtudes estão sendo colocadas a prova a todo instante, meus passos são firmes e enérgicos, ainda sou um caçador de sonhos e passei de aprendiz a mestre, pois caminhar a caça de sonhos é apenas uma escolha.
Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Estratégia


Foi o teu carinho que me chamou minha atenção, muitas vezes cruzei por ti e nada mais do que poucas palavras e trocas de olhares tentei, mas eu sabia que aconteceria, e tive paciência então fiquei esperando a oportunidade passar novamente por mim, tinha certeza que teria outra chance, pensei que seria diferente, que bom que não foi, que foi assim de improviso, que nada do que pensei deu certo, porquê se fosse do jeito que imaginei pareceria um teatro e não uma conquista, te conquistei aos poucos, mas fui conquistado em instantes, por teu jeito de me tratar, nas tuas palavras senti o calor de um colo e o tempo passou e quando me dei conta já era tarde, mais uma vez segui meu coração deixando a razão totalmente de lado.

Queria mais uma conquista, e a situação saiu do meu controle não consegui evitar e acabei me apaixonando, notei isso quando ao acordar lavar o rosto e olhar-me no espelho estava estampado nas minhas feições, eu realmente estava apaixonado e não podia mais voltar atrás, sempre usei o jogo da sedução a meu favor divertia-me flertando, e incorporando personagens de contos de fadas, mas contigo foi diferente, comecei o jogo e quando percebi de jogador eu passara para peça, me perguntei várias vezes onde estava o raciocínio lógico, as estratégias, o blefe, confesso que tentei o plano B mas ao tentar uma saída estratégica cai no meu próprio revés.

Comecei tão confiante que acreditava fielmente na minha estratégia, seria apenas mais uma conquista como tantas outras, poucas jogadas e xeque-mate, pronto, fim do jogo, mais uma peça derrubada no tabuleiro, mais uma conquista e o sabor da manipulação, não tinha plano B, pois tudo estava ensaiado na minha imaginação, daria certo nas primeiras jogadas, mas havia um detalhe: esqueci que o que manipula o coração é a mente, mas se o coração parar a mente também para, e o jogo da sedução tem-se riscos imprevisíveis, manipular o jogador é fácil, mas mais fácil ainda é ser manipulado pelo próprio coração.

Quando percebi que não tinha dado nenhum blefe nem jogado racionalmente, era tarde e o jogo tinha tomado proporções que eu nunca tinha estado, entrava cada vez mais num território que me deixava cada vez mais irracional, mas apesar disso sentia-me confortável e protegido, a vitória já não me era a maior importância, mas sim a permanência no jogo e o bem estar que isso me proporcionava, em nenhum momento me senti derrotado, apenas certo de que estava fugindo do meu controle e que por mais que eu quisesse ganhar, insistia em permanecer no jogo.

De sedutor a seduzido, nunca gostei tanto de perder um jogo como agora, não me importo se me tornei uma marionete nas mãos dela, nem se o “raciocínio lógico” não vai afetar em nada esse jogo, nossas partidas não tem mais horários nem dias, são separadas por uma distância enorme o que torna nosso jogo muito mais intenso e prazeroso, nossas partidas as vezes são curtas, outras longas até o amanhecer, nela não existem blefes nem jogadas racionais e sim provocações e flertes, a cada partida terminada fico impaciente para a próxima e durmo pensando, não em estratégias e planos, mas sim em poder olhar nos olhos dela e sentir o tom de sua voz, não tenho jogadas ensaiadas, o jogo é apenas pretexto para estar ao lado dela, se é amor não sei ainda, mas com certeza é a minha paixão.

Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

terça-feira, 13 de abril de 2010

Anjos guerreiros


Nessa noite sonhei com anjos, um sonho muito prazeroso que não me deixava acordar, eram anjos lindos e nada tinham a ver com os que vemos em paredes de igrejas e em santuários, andavam por todos os lados, vários deles e nenhum deles tinham asas ou voavam, mas todos eram tentadores e muito belos, carregavam uma pureza no olhar e uma serenidade na alma, não estavam eles num jardim florido nem em um grande gramado, usavam roupas brancas, mas não portavam harpas e nem entoavam melodias, promoviam a cura através de suas mãos e seus dons eram limitados a cada um, alguns possuíam especialidades mais desenvolvidas e outros mais jovens ainda aprendendo a desenvolver ou aprimorando suas técnicas.

Vi anjos jovens e velhos, nenhuma canção escutei nem vi milagres serem operados, todos carregavam semblantes de muita tranqüilidade e essa tranqüilidade me deixava calmo, aprendi que paciência é uma virtude que pode ser conquistada ou até mesmo imposta, que o tempo passa e traz consigo características que sem percebermos a cada respiração absorvemos um pouco, e quanto mais tempo passamos próximos desses anjos mais leves e puros nos tornamos, todos eram muito zelosos e cautelosos, durante esse sonho vi inúmeras curas e recuperações.

Nenhum anjo alçou voou nem irradiou luzes de suas auréolas, mas todos possuíam áureas brilhantes e encantadoras, tinham uma leveza na voz que eram capazes de fazer adormecer mesmo já estando em sono pleno, consolavam com palavras certas até quem os ignoravam ou então os maldiziam, todos eles possuíam uma virtude essencial para serem anjos, a solidariedade, e sem distinção de idade, sexo ou experiência todos eles eram humanitários, e acreditavam na cura ás vezes mais do que os próprios enfermos.

Dedicados e empenhados a dividirem seus dons, doando as suas vidas em prol de outras e sem condenar ou fazer distinção, dispostos a dividirem suas energias em bem comum tornavam o ambiente iluminado, se a escuridão se fazia presente esses mesmos anjos com seus escudos e brandindo espadas se transformavam em anjos guerreiros, destemidos e incansáveis eram estes os anjos dos meus sonhos, anjos que para alguns foram forjados pelas mãos de Deus e por outros pela sabedoria dos homens, não importando suas procedências ou seus brasões a única certeza era que me sentia totalmente confortável e protegido por suas mãos, os quais nada sabia a respeito.

Chegava à hora de acordar e apertava mais meus olhos a fim de continuar ali apenas observando o trabalho desses anjos, suas energias eram acentuadas a cada nova cura ou sorriso, durante meu sonho passei dias e noites nesse lugar apenas os observando, e todos trabalhavam sem parar, exercendo seus dons e suas habilidades sem cobrar nada em troca nem aparentar cansaço, sentia as vibrações de amor e de esperança no ar, e ao acordar percebi que desde o momento em que nascemos somos resguardados por esses mesmos anjos guerreiros.

Em tributo as equipes de enfermagem, meu agradecimento!!!

Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

terça-feira, 6 de abril de 2010

A vista da janela









Minha visão é limitada apenas por uma janela, e por entre ela vejo pessoas passando e circulando, gente de todo o tipo e classes sociais, vejo meninos e velhos, doentes e sãos, altos e baixos, e eu aqui deitado imaginando o que será os pensamentos deles, quais serão seus sonhos, aonde vão com tanta pressa, para onde vão e o que será que farão, como vivem e o que fazem, tanta pressa e eu aqui apenas os observando e especulando suas vidas.
Não tenho idéia aonde chegarão, mas sei que com certeza vão a algum lugar carregando seus objetivos, várias histórias vi passar e com muitas aprendi algumas coisas, mas mesmo assim tenho uma curiosidade enorme em conhecer cada um desses figurantes da vida, quero poder absorver um pouco de cada vivência, saber detalhes de como vivem e onde moram, quero conhecer suas conquistas e seus méritos.
Cada dia que passo a olhar pela janela adquiro novas experiências, e dou valor a meu real estado, então entendo que cada vez mais correta é a afirmação de que na vida só temos apenas duas escolhas, podemos escolher o lado ruim ou o lado bom, basta apenas arcarmos com os prejuízos de cada escolha, percebo também que independente da escolha sempre teremos algum tipo de pena, pois na novela da vida não existe nada de plenitude, apenas roteiros variados e com histórias semelhantes.
Aprendi com alguns protagonistas que as dificuldades poderão ser passageiras ou permanentes, depende do roteiro e das escolhas, e eu aqui sendo um mero espectador da novela da vida, acabo tendo simpatia e afeição por alguns personagens e desprezo por outros, me identifiquei com alguns e aprendi muito com outros, e a cada dia que se passa nessa história mais personagens se revelam e mostram suas características, tanto boas quanto ruins, começo a torcer por alguns vibrando junto nas vitórias ou chorando nas derrotas.
Emoções a flor da pele e ânimos exaltados, uma espera onde o tempo demora a passar, cada segundo parece minuto, e cada dezena de minutos é capaz de tornar-se uma eternidade, e quando perguntado o que penso a respeito dessa situação e se não fico frustrado por ter apenas uma janela para olhar logo respondo que:- Ainda bem que tenho uma ótima vista e não posso me queixar de solidão, pois tenho ótimas Companhias.




Eduardo Dias Gonçalves


Foto de: Adriane Medeiros

terça-feira, 30 de março de 2010

A isca certa


Hoje fui tentar pescar, já tenho uma vara de pesca e um anzol, mas não sei que tipo de isca que se usa, nem sei se é necessário isso tudo para pescar sonhos, mas mesmo assim fui tentar, enquanto estava na beira do mar esperando algum sonho ser fisgado, vi inúmeras ilusões saltando, algumas eram muito bonitas e possuíam um brilho encantador, também vi certas esperanças nadando por entre as ondas, mas me mantive atento a qualquer movimento, esperando algum sonho ser fisgado, passei horas ali imóvel apenas esperando.
Algumas horas se passaram e eu estava ficando frustrado, pois nada se mexia, ainda não havia fisgado nada, estava apenas eu sentado no píer e aquele bendito anzol na água, as ondas sempre compassadas, as gaivotas pairando no ar voavam para longe aonde não era possível vê-las, e o tempo apenas passava, era uma tarde tranqüila com um lindo pôr de sol, durante todo o tempo nenhum sonho fisguei, mas belas paisagens contemplei, senti o vento no rosto, o calor do sol na pele e o barulho do mar me hipnotizava.
Resolvi voltar para casa, chateado por não ter conseguido pegar nada, no caminho de volta, passei por um velho andarilho o qual me pediu uma esmola, falei que não tinha nada e que apenas havia saído para pescar, então o velho pergunta-me se eu seria capaz de dividir os frutos da minha pescaria, pois ele estava caminhando há várias horas e nada tinha conseguido, falei para ele que havia passado toda à tarde esperando, mas que nada fora fisgado.
Segui meu caminho, quando o velho andarilho novamente me chamou, e perguntou-me que tipo de peixe eu esperava pescar, olhei para o mar e lhe disse que eu estive ali tentando pescar sonhos, mas que não tinha tido nenhum sucesso, mas minha voz carregava um tom de desânimo.
O velho com um sorriso no rosto deu uma gargalhada e novamente me fez outra pergunta:
-E que tipo de isca você esta usando?
Respondi que estava usando apenas o anzol, pois não sabia o que realmente os sonhos gostavam, rindo como um louco o velho me fala:
-Como você vai tentar pescar sonhos sem usar a isca certa?
Estava ficando irritado com os comentários do velho, e quando pensei em responder algo, ele me interrompeu:
-Para pescar sonhos você não precisa de nenhum anzol, apenas usar a isca certa!
Esse velho estava me deixando irritado quando perguntei num tom de desprezo então qual seria a isca certa, já que ele estava tão convicto de saber como pescar sonhos, rindo respondeu-me:
-Os sonhos gostam de pessoas, eles sempre estão na volta de pessoas...
Logo perguntei qual seria o problema de eu não ter conseguido pegar nenhum sonho, sentia-me igual a qualquer mortal, então o velho exclamou:
-Mas só se deixam fisgar por pessoas puras de coração, aquelas que dividirão seus sonhos com outros...
Não estava entendendo nada do que o velho estava falando, apenas estava frustrado por não ter pego nenhum sonho, fui saindo irritado por ter perdido tempo com aquela conversa tola, quando mais uma vez o velho me chama e explica-me, que para pescar sonhos era necessário ter a intenção de dividi-los e que se o coração estivesse cheio de mágoas e ressentimentos nenhum sonho seria fisgado, apenas estariam ali na minha volta, mas não se deixariam
pegá-los, pois os sonhos estão na volta de todas as pessoas, mas se deixam fisgar apenas por aquelas que são puras de coração.Poucos sonhos consegui pescar, alguns de tão pequenos nem foram notados, mas todos foram divididos, ainda não achei a isca certa para pegar os grandes, pois para cultivar a isca certa é necessário tempo para curar o coração das magoas e ressentimentos do passado, apesar de ainda não ter pescado algum, as vezes sinto beliscarem minha linha e vejo que estou no caminho certo.

Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

domingo, 28 de março de 2010

Dúvidas e sonhos


Na beira da praia, um mate na mão e um pensamento longe, examinando as minhas filosofias, tentando entender algo que eu nem sei qual é a pergunta, tenho algumas respostas, mas não tenho as perguntas, por outro lado tenho inúmeras perguntas e nenhuma resposta, e as respostas que tenho não servem para absolutamente nada, penso saber muito, mas quanto mais eu penso mais percebo que minha evolução ainda está recém no começo, e que muitos dos meus sonhos não se tornarão realidade, nem ao menos chegarão perto disso.
Mas minha imaginação trabalha a todo vapor criando muitos outros sonhos, eles começam pequenos e com o passar do tempo crescem e tomam proporções inimagináveis, outros acabam tendo suas vidas muito curtas, e antes de crescerem, acabam murchando e morrendo, na lei da vida nem todos chegam ao que almejam, mas todos temos algum propósito assim como nossos sonhos, se um sonho não chegou a crescer, ele certamente deixa algum traço em outro, e esse outro sonho pode tornar-se um gigante, pode revelar sua força e se mostrar inabalável, pode ser a motivação de muitos e felicidade de alguns.
Somos movidos a sonhos desde pequenos, às vezes não os compreendemos, mas nem por isso paramos de sonhar, muitas vezes temos pesadelos que surgem para destruir alguns dos nossos melhores sonhos, no entanto nossa mente cria muito mais sonhos do que o pesadelo mais poderoso é capaz de desmanchar, somos uma máquina perfeita de fabricar sonhos. Alguns de nossos sonhos são repassados para nossos filhos, irmãos e amigos, mas quantos sonhos somos capazes de criar? Com que intensidade os criamos? E se pararmos de sonhar o que acontece?
Já me frustrei por não ter realizado alguns dos meus menores sonhos, e jurei não voltar a sonhar novamente, mas alguns minutos se passam e logo minha mente aliada com meu coração e contra minha vontade acaba me trazendo outro sonho para seguir, minha mente me convence de que vale a pena, e o coração empolgado se entrega, não sei se esse sonho vai se tornar grande, nem se vai se realizar, mas minha razão insiste em me convencer de que o mais sensato é segui-lo.
Não consigo parar de criar sonhos, e não canso de persegui-los, não importa a distância nem o caminho, pois meus sonhos são como flores, precisam de muitos cuidados, de água, carinho, atenção e persistência, nem todos floresceram e se tornaram independentes de cuidados, mas muitos estão plantados, e os que morreram deixaram suas sementes para assim tentarem novamente, assim são os meus sonhos, simples e belos como flores.
E a cada sonho que é criado, centenas de dúvidas o acompanham, mas nenhuma delas se encaixam em minhas respostas, e não entendo o por quê insisto em sempre seguí-los e não consigo parar de criá-los, quanto mais sonho mais longe vou, e quando consigo realizá-lo outro sonho maior se sobrepõe e me faz caminhar para mais alem ainda, me colocando mais perguntas para tentar entender, e sem ao menos me dar as respostas das dúvidas anteriores,
e se meu sonho morrer, ainda tenho muitos outros para seguir e muitas perguntas para responder.

Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

quinta-feira, 25 de março de 2010

A fortaleza do coração


Um dia morei em um castelo, ele era perfeito, de grande beleza, e gigantesco, possuía um grande fosso para protegê-lo, inúmeras dependências, as paredes eram grossas e fortes, nada poderia derrubá-lo, nem chuva nem vento, dentro dele estava guardado todos os meus pertences e tesouros, várias intempéries meu castelo sofreu, algumas de tão fortes acabaram abalando apenas algumas telhas, mas nenhuma chuva ou ventania foi capaz de fazer meu castelo estremecer.
Eu possuía mais de cem lanceiros guardando-o, tinha duas dúzias de soldados resguardando cada flanco, e ao redor alguns dos meus melhores cavaleiros, faziam rondas durante todas as horas do dia e da noite, meu castelo era tão bem protegido que ninguém entrava nem saia sem a minha autorização, eu tinha total controle sobre qualquer acontecimento que ocorria, meu castelo era totalmente inabalável e extremamente seguro.
Vários inimigos tentavam sucumbí-lo de alguma forma, e estavam sempre procurando alguma brecha para adentrar dentro dele e conseguir tomar minhas posses, mas todas as tentativas e planos sempre foram em vão, ou meus soldados os esmagavam antes mesmo de tentar, ou simplesmente meus arqueiros os faziam recuarem com inúmeras baixas nas suas tropas, sempre escolhi soldados mais velhos e com inúmeras experiências em batalhas, pois soldados jovens são ingênuos e vulneráveis.
Mas apesar de estar protegido por grossas paredes de pedras, centenas de guerreiros e vestindo uma armadura metálica perfeita, forjada sob medida pelos melhores artesãos da época, ainda assim eu era tão inocente como uma criança, tão racional como um jovem e tão vulnerável quanto um velho, apesar de eu aparentar ser sábio, forte e destemido, a verdade exalava pelos meus poros, no meu intimo eu sentia-me burro, fraco e covarde.
Eu era capaz de liderar duas vintenas de soldados e conquistar qualquer território, minhas baixas sempre foram poucas, pois meus bravos guerreiros sempre acreditavam em minhas palavras, e iam as lutas com a certeza de voltarem para suas mulheres e filhos, com mais uma batalha vencida, meu estandarte tremulava ao vento enquanto soldados entoavam canções, bradando o meu nome; Não acreditávamos em deuses ou magias, apenas no fio de espadas, lanças, machados e sabíamos que somente duas coisas poderiam nos proteger: nosso companheiro à direita e nosso escudo a esquerda, meus inimigos temiam meus exércitos.
Dominei vários territórios, mas nunca pisei em nenhum deles, apenas os conhecia por mapas e cartilhas, ganhei inúmeras batalhas sem nunca pegar numa espada, matei muitos inimigos, mas nunca senti o cheiro de sangue e de corpos apodrecendo, dizimei povoados sem ao menos vê-los, fui mais longe do que qualquer homem consegue caminhar a pé, e conquistei tudo isso sempre de dentro de minha fortaleza, sempre acreditei que a sorte favorece os destemidos e baseado nisso sempre acreditei na vitória de meus guerreiros, mas minha maior guerra era comigo mesmo.
Apesar de ter tudo me sentia completamente vazio, invejava meus soldados e suas esposas a brincarem com seus filhos, os camponeses felizes com suas humildes vidas, e eu mesmo tendo muitas mulheres em minha cama me sentia um solitário, um fracassado, algo faltava em minha vida, e não era a vitória de batalhas, nem a conquista de territórios, eu tinha um reino inteiro e nada me satisfazia, eu tive abraços sem calor, beijos sem paixão, e carinhos sem doação,também fui traído algumas vezes, mas ganhei inúmeros reinos e nunca perdi uma batalha, mas a minha batalha interna estava me matando aos poucos, estava me enfraquecendo cada vez mais.
Minha vulnerabilidade estava ficando cada vez mais exposta, todo o dia ao acordar, sentia cada vez mais essa dor me corroendo, essa cólera me desmotivava, meus olhos já não tinham mais brilho, e cada dia se passava e o sentimento de solidão aumentava cada vez mais, então certa vez ao sair para examinar meus soldados e vistoriar meu contingente, passando por uma das torres vi o que faria meu castelo desabar.
Era uma mulher com poucos anos, já não era menina, mas tinha uma inocência nos olhos claros, dona de uma pele clara, cabelos lisos e dourados,
mais bela que ela duvidava existir e se existisse não me importava, pois nem quando antecedia minhas maiores batalhas meu coração acelerava tanto quanto naquele momento, desci as escadas rapidamente para ir até ela, mas quando cheguei não a achei, procurei em todos os cantos, perguntei a todos quem era aquela mulher que eu tinha visto, mas ninguém sabia me dizer algo a respeito.
Sem saber nada dessa mulher continuei a procura dela, e quando a achava ao tentar aproximar-me dela como em um passe de mágica ela desaparecia, e deixava somente seu perfume no ar, um perfume de jasmim com lavanda e rosas, um cheiro único e embriagante, passei noites e noite sonhando com ela, quando alguma mulher passava procurava em seu rosto os traços dela, quando via algum jasmim me lembrava do cheiro dela, quando alguma mulher de cabelos claros percorria pelo meu castelo eu corria para ver se não a achava, dias e dias se passavam e meu coração parecia cheio de vida, meu sangue pulsava em minhas veias, nunca havia me sentido tão vivo.
E apesar de eu estar totalmente protegido em minha fortaleza, minha alma estava totalmente entregue a uma mulher que eu nem sabia o nome, apenas sabia que ela era a mulher mais linda de todo o reino, e que por ela seria capaz de trocar todas as minhas conquistas em troca do seu amor, um homem pode ser tão forte quanto uma rocha, mas é tão vulnerável quanto um pássaro sem asas, pode ter todo o dinheiro e poder, mas nada seria sem um coração que pulsa dentro do peito, era primavera e todas as flores desabrochavam e exalavam seus perfumes, e neles era possível perceber o cheiro de jasmim, o cheiro dela, neste ponto eu estava com a parte mais vulnerável de todo o reino nas mão de uma mulher, meu coração.
Recrutei inúmeros soldados para procurá-la, mas todas as tentativas sempre fracassavam, nenhuma informação ou pista, apenas um aperto cada vez maior no meu peito, será que tudo não passou de uma ilusão? Um sonho? Será que eu estava ficando louco? Apesar das dúvidas eu ainda tinha esperanças de achá-la, eu tinha certeza que ela era o que me faltava, o que me completaria, dias e meses se passaram e nada de achá-la, várias tentaram se passar por ela, mas todas não se passavam de mentiras e pretensões, minhas esperanças estavam chegando ao final.
Estava começando a me convencer de que tudo realmente foi uma ilusão da minha mente, de que não tinha visto o que eu imaginava ter visto, de que isso foi apenas uma carência minha se materializando no meu pensamento, mas quando sentia aquele cheiro, era como se fosse um feitiço ou algo parecido, mesmo não acreditando em magia, eu a via na minha frente, mas não podia tocá-la nem escutá-la, apenas a via ali na minha frente a poucos passos de distância. E entendi o porque meus guerreiros tinham aquele brilho nos olhos e aquela vontade de sempre vencer e voltar para casa, então percebi que era o amor que movia os meus soldados e não as minhas palavras e nem suas medalhas, foi nesse instante que tomei uma das decisões mais importantes da minha vida.
Apesar de eu ainda não ter vencido a guerra mais importante da minha vida, ainda estava disposto a morrer tentando, pois enquanto eu não conseguisse vencer a mim mesmo, e achar a minha outra metade não desistiria nunca, muito tempo se passou e eu ainda não a achei, venci muitos medos e pesadelos íntimos, já não me acho mais burro, fraco e covarde, mas ainda não encontrei o meu amor, ainda moro num castelo e sinto o cheiro dela, também sonho a todo instante com essa mulher e por ela não perco o brilho no olhar, nem a esperança de um dia achá-la, e se achá-la trocarei todo o meu reino apenas por um amor sincero.

Eduardo Dias Gonçalves 25/03/2010