sexta-feira, 14 de maio de 2010

Espírito guerreiro


Surgi de um ventre pagão que não tinha nem crenças nem credo, fui colocado ao mundo como apenas mais um soldado assim como tantos não vieram de famílias nobres nem distintas, mas carrego brasões que poucos se igualam ou são capazes de afrontar, nasci criança e quando ainda jovem me tornei soldado e ao passar do tempo virei nobre, recebi minha primeira espada forjada com o melhor ferro do mundo, com entalhes precisos e luxuosos, afiada como uma navalha, tive inúmeras batalhas e muitas derrotas, mas nunca desisti de lutar, muitas vezes tive medo e nem por isso hesitei em voltar atrás, porque guerreiros não temem a morte e sim não terem combates para serem travados, a vida de um guerreiro não sabe manter-se acomodada e sim sempre em frente desbravando e conquistando cada vez mais, as vezes conquistando a mesma coisa várias vezes, um guerreiro não é burro ou tolo, ele conhece inúmeros poemas e canções, e no calor das guerras entoa melodias capazes de encorajar qualquer jovem idiota a brandir espadas e perfurar corações alheios.
De muitos separei suas almas de seus corpos, outros defendi com minha lealdade nata, fiz muitos julgamentos precipitados e por eles paguei altos valores, recebi muitas moedas de valores diversos, carrego comigo minha armadura e na bainha uma espada afiada, hoje sou muito mais forte do que uma dúzia de anos atrás, mas ainda tenho algumas dezenas de anos para aprender, quando entro num campo de batalha sou como um animal selvagem defendendo os seus semelhantes, sou liderado apenas por um estandarte de pano tingido com sangue e ervas, o fio da minha espada percorre todas as direções dilacerando o que ousar passar a minha frente, no meu escudo carrego meus ideais e meus sonhos, muitos deles se acabaram por golpes de espadas e lanças inimigas, mas os poucos que ainda tenho me motivam sempre a continuar a luta.
Hoje sou apenas um nobre guerreiro a pé, pois meu cavalo sacrificou-se por minha pessoa, meu agradecimento a ele chegará na hora que eu for derrotado definitivamente e quando eu não tiver mais forças para erguer meu escudo e minha espada, então o verei novamente para nosso último galope, e esperarei o inimigo estocar meu peito e me afogar em meu próprio sangue, baixas acontecem todos os dias, mas quando são nossos companheiros tratam-se de perdas, e a cada perda que tenho faço um risco na parte de dentro do meu escudo exatamente na altura dos meus olhos, como um manifesto meu de que onde eu estiver, sempre estarei lutando por eles, carrego por baixo da malha de cobre que protege minha pele, pertences das pessoas que amo, não creio em Deus mas entre as minhas lembranças encontra-se um crucifixo amarrado em uma tira de couro assim como outras lembranças.
Na minha última batalha recebi alguns golpes brutais, e deste tive feridas sérias, mas nem por isso separei-me da minha alma, das lesões além de cicatrizes herdei algumas dores e pesadelos durante a noite, hoje estou fora de combate, mas meu sangue ainda ferve como prestes a entrar em um novo combate, não sei onde estou nem como estão os meus soldados, jurei nunca mais voltar, mas quando acordei estava no velho vilarejo que nasci, continuava tudo igual, o destino me pregara mais uma peça, não lembro dos golpes que me adormeceram, mas vejo no meu corpo as marcas que elas me causaram, não entendo o que os seus deuses querem me mostrar e me ensinarem, estou atordoado louco para enfrentar novos exércitos.
Estou preso em uma cama, sem armadura e sem armas, minha espada foi trocada por um cedro de madeira, minha marcha não é a mesma, meu escudo tornou-se pesado demais para meu corpo suportar, minha resistência se assemelha a de um velho esperando a morte, ainda tenho meus ideais e meu espírito de guerreiro, meu corpo não é mais o mesmo, cada dia que passa sinto como se fosse uma derrota contra eu mesmo, quero voltar a sentir o cheiro de sangue e suor dos soldados, quero aparar golpes em meu escudo e dilacerar inimigos, gritar e esbravejar aos quatro ventos, quero dividir almas de corpos, tingir a grama verde com sangue e suor, quero voltar a lutar.
O tempo que me enfraquece em dúvidas e pesadelos é o mesmo que fortalece minha alma e recupera meu corpo, porque uma alma de guerreiro insiste em não se desprender do corpo independente de quantos golpes o atingirem, então acredito que se minha alma ainda move meu corpo é apenas porque ainda tenho grandes combates a travar e muitas pessoas a defender, enquanto meu coração for capaz de bater e meu punho segurar minha espada, não vou nunca adiar uma batalha, quero morrer num campo de batalha pelo fio de uma espada e nunca esperando a morte vir ao meu encontro me tocar com sua mão em meu ombro direito, pelo simples fato de que um guerreiro deve sempre morrer lutando.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cris Valente

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