terça-feira, 18 de maio de 2010

O poema de um beijo

Dia destes escutei um poema, não era de Drummond ou de Shakespeare nem tinha composições organizadas e compassadas como Chopin ou Beethoven, e começou silenciosa com um abraço depois um beijo, então foi apenas eu sentir o toque dos seus lábios, o cheiro do seu hálito e nossas línguas se tocarem, para logo nossos corpos pegarem fogo e o desejo nos tomar conta fazendo nossos sentidos se misturem e saírem do controle, nossas mãos percorrendo cada centímetro de pele, o cheiro, o calor, a fusão de sentidos, no fundo aquela melodia nos excitando, instigando-nos a cada vez mais sair do controle, a chuva que cai sobre nossos corpos se evapora e ameniza tanto fogo, aproveitando o máximo como se fosse o último dia de nossas vidas, o toque na tua pele faz surgir um turbilhão de sensações, a maciez dos teus cabelos anestesia os meus dedos, teu cheiro me embriaga e faz aflorar meus desejos mais selvagens.
Nessa troca de saliva e desejos o tempo não passa apenas de relógios, sentimentos dos mais variados se misturam, já não sei se são os meus ou os teus que eu sinto agora, apenas sei que nossa sintonia encontra-se perfeita, como se todos os planetas estivesse alinhados, a lua que ilumina nossos corpos te torna ainda mais bela, a chuva que molha nossas roupas é a mesma que instiga nosso desejo de livrar-se delas, minhas mãos percorrem lentamente e carinhosamente teu corpo, te provocando sensações de prazer incontroláveis, tuas unhas arranham minha pele me deixando cada vez mais irracional, cada vez mais fora de controle, nossas peles tornam-se únicas e nossos beijos cada vez mais sedentos e apaixonados.
Esse calor que toma conta da gente aumenta cada vez mais a cada toque, nossos corpos molhados de chuva e de suor só aumentam as sensações de prazer, no meio de tanta excitação é impossível ser racional, e emoções apenas são sentidas a todo o momento, milhões delas ao mesmo tempo e a todo instante, nossas almas são a mesma, são beijos ardentes e caricias ousadas, meus toques te enlouquecem e te levam a outra dimensão, palavras são pronunciadas no teu ouvido, e o calor da minha voz te incendeia, fazendo teus desejos mais secretos aflorarem, minha pele exala instintos que nunca tinham sido sentidos, são caricias feitas por mãos macias em peles sedentas de amor e desejo, um poema que foi criado pela alma e escrito com corpos, que não pode ser impresso em folhas de papel, mas pode ser apenas ouvido por corações apaixonados.
Eduardo Dias Gonçalves

Foto de: Cândido Gonçalves

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Espírito guerreiro


Surgi de um ventre pagão que não tinha nem crenças nem credo, fui colocado ao mundo como apenas mais um soldado assim como tantos não vieram de famílias nobres nem distintas, mas carrego brasões que poucos se igualam ou são capazes de afrontar, nasci criança e quando ainda jovem me tornei soldado e ao passar do tempo virei nobre, recebi minha primeira espada forjada com o melhor ferro do mundo, com entalhes precisos e luxuosos, afiada como uma navalha, tive inúmeras batalhas e muitas derrotas, mas nunca desisti de lutar, muitas vezes tive medo e nem por isso hesitei em voltar atrás, porque guerreiros não temem a morte e sim não terem combates para serem travados, a vida de um guerreiro não sabe manter-se acomodada e sim sempre em frente desbravando e conquistando cada vez mais, as vezes conquistando a mesma coisa várias vezes, um guerreiro não é burro ou tolo, ele conhece inúmeros poemas e canções, e no calor das guerras entoa melodias capazes de encorajar qualquer jovem idiota a brandir espadas e perfurar corações alheios.
De muitos separei suas almas de seus corpos, outros defendi com minha lealdade nata, fiz muitos julgamentos precipitados e por eles paguei altos valores, recebi muitas moedas de valores diversos, carrego comigo minha armadura e na bainha uma espada afiada, hoje sou muito mais forte do que uma dúzia de anos atrás, mas ainda tenho algumas dezenas de anos para aprender, quando entro num campo de batalha sou como um animal selvagem defendendo os seus semelhantes, sou liderado apenas por um estandarte de pano tingido com sangue e ervas, o fio da minha espada percorre todas as direções dilacerando o que ousar passar a minha frente, no meu escudo carrego meus ideais e meus sonhos, muitos deles se acabaram por golpes de espadas e lanças inimigas, mas os poucos que ainda tenho me motivam sempre a continuar a luta.
Hoje sou apenas um nobre guerreiro a pé, pois meu cavalo sacrificou-se por minha pessoa, meu agradecimento a ele chegará na hora que eu for derrotado definitivamente e quando eu não tiver mais forças para erguer meu escudo e minha espada, então o verei novamente para nosso último galope, e esperarei o inimigo estocar meu peito e me afogar em meu próprio sangue, baixas acontecem todos os dias, mas quando são nossos companheiros tratam-se de perdas, e a cada perda que tenho faço um risco na parte de dentro do meu escudo exatamente na altura dos meus olhos, como um manifesto meu de que onde eu estiver, sempre estarei lutando por eles, carrego por baixo da malha de cobre que protege minha pele, pertences das pessoas que amo, não creio em Deus mas entre as minhas lembranças encontra-se um crucifixo amarrado em uma tira de couro assim como outras lembranças.
Na minha última batalha recebi alguns golpes brutais, e deste tive feridas sérias, mas nem por isso separei-me da minha alma, das lesões além de cicatrizes herdei algumas dores e pesadelos durante a noite, hoje estou fora de combate, mas meu sangue ainda ferve como prestes a entrar em um novo combate, não sei onde estou nem como estão os meus soldados, jurei nunca mais voltar, mas quando acordei estava no velho vilarejo que nasci, continuava tudo igual, o destino me pregara mais uma peça, não lembro dos golpes que me adormeceram, mas vejo no meu corpo as marcas que elas me causaram, não entendo o que os seus deuses querem me mostrar e me ensinarem, estou atordoado louco para enfrentar novos exércitos.
Estou preso em uma cama, sem armadura e sem armas, minha espada foi trocada por um cedro de madeira, minha marcha não é a mesma, meu escudo tornou-se pesado demais para meu corpo suportar, minha resistência se assemelha a de um velho esperando a morte, ainda tenho meus ideais e meu espírito de guerreiro, meu corpo não é mais o mesmo, cada dia que passa sinto como se fosse uma derrota contra eu mesmo, quero voltar a sentir o cheiro de sangue e suor dos soldados, quero aparar golpes em meu escudo e dilacerar inimigos, gritar e esbravejar aos quatro ventos, quero dividir almas de corpos, tingir a grama verde com sangue e suor, quero voltar a lutar.
O tempo que me enfraquece em dúvidas e pesadelos é o mesmo que fortalece minha alma e recupera meu corpo, porque uma alma de guerreiro insiste em não se desprender do corpo independente de quantos golpes o atingirem, então acredito que se minha alma ainda move meu corpo é apenas porque ainda tenho grandes combates a travar e muitas pessoas a defender, enquanto meu coração for capaz de bater e meu punho segurar minha espada, não vou nunca adiar uma batalha, quero morrer num campo de batalha pelo fio de uma espada e nunca esperando a morte vir ao meu encontro me tocar com sua mão em meu ombro direito, pelo simples fato de que um guerreiro deve sempre morrer lutando.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cris Valente

sábado, 1 de maio de 2010

Conto de fadas versão realista

Era uma vez uma linda princesa, ela era bela e formosa e dona de cabelos claros, portava um vestido branco com detalhes em vermelho, cantava melodias doces e encantadoras, todos no reino invejavam essa bela princesa, logo quando a vi foi amor a primeira vista, desejei essa bela princesa, ganhei jogos e batalhas para ter o direito de me casar com ela, passou-se alguns anos e eu finalmente consegui, havia recebido a mão dessa bela princesa e jurado amor eterno, algum tempo passou, como lei da vida as coisas acabam envelhecendo e com nós não foi diferente, a bela princesa que casei começou a aparentar o tempo vivido, mas junto com o tempo veio o desencanto e a realidade acabou se mostrando.
Sempre quando acordava ao lado dela tinha a impressão de que ela estava mais peluda, o hálito dela já não era o mesmo que quando nos casamos, seus dentes estavam cada vez mais afiados, suas mãos já não eram mais delicadas e pequenas, quando nos casamos ela possuía olhos com uma ternura inigualável, mas que hoje pareciam de um animal selvagem, o cheiro dela exalava sangue, e as melodias doces e encantadoras se tornaram rosnados apavorantes, em pouco tempo a minha tão amada bela transformou-se em fera, e o amor transformou-se em medo.
Deitei com uma princesa e acordei com um lobo selvagem, sedento por alimento, frio e calculista, um assassino terrível e cruel, antes de matar suas vitimas ele as persuadia e as fazia confiarem que ele apenas tinha boas intenções, matava suas presas lentamente e cruelmente, se regozijava com os gritos de dor e lágrimas derramadas, tornava a morte lenta e dolorosa apenas pelo prazer adentrar por entre seus olhos famintos, meu conto de fadas acabou se transformando em uma história de terror amedrontadora, fez meus sonhos se transformarem em pesadelos, vi meu mundo ruir aos poucos e fui rapidamente do céu ao inferno.
Certo dia pressentindo minha morte, resolvi fugir porque temia morrer agonizando no meu próprio sangue, passei tanto tempo com esse assassino do meu lado que não percebia o perigo que eu corria, passeava por belos bosques e vales com um selvagem me observando cada passo, calculando o melhor momento para abater-me, sempre estive na posição de presa fácil e nunca me dei de conta, na minha visão não conseguia distinguir aquele lobo da bela princesa que eu conheci, várias pessoas tentaram me avisar, mas nunca dei a devida atenção, então antes de eu achar o momento certo para salvar minha vida, fui atacado por esse animal repulsivo, lutei muito para me desvencilhar das garras da fera e só depois de muito lutar acabei saindo do meu pesadelo.
Sai com marcas profundas pelo corpo inteiro, de muitas feridas levei muito tempo para me recuperar, tive órgãos vitais dilacerados pelas garras de um animal sanguinário que para mim parecia uma bela princesa, muito tempo se passou e as feridas se fecharam e a pele ficou com algumas marcas, assim como o meu órgão vital mais importante e apesar de ferido não parou nunca de bater, esse animal ainda continua a procurar suas vitimas e dilacerar seus órgãos, mas pouco me importo com isso, porque esse conto de fadas teve seu final e não passa apenas de mais um livro que nunca mais será aberto por mim.
Eduardo Dias Gonçalves