Neste pequeno espaço, convido você, a percorrer um caminho nunca antes adentrado por ninguém, onde teremos estradas sinuosas, ingremes, penhascos enormes e assustadores, mangues, rios, mares, mas com certeza, com belas paisagens e sensações que farão com que você estremeça, seja bem vindo...
sexta-feira, 30 de abril de 2010
O pássaro e eu
Desde pequeno sempre quis voar, queria sentir a sensação que estar lá no céu proporciona no corpo, tenho medo de altura então acho que nunca vou conseguir voar, pois sou apegado ao chão, um dia uma linda mulher dona de um sorriso lindo disse-me que a sua maior alegria seria quando eu aprendesse a voar, tentei inúmeras vezes voar,apenas para agradá-la mas nunca consegui nem mesmo planar, meus pés são lentos e pesados, sentia um pouquinho de inveja ao apreciar aquele pássaro lá no céu, se eu conseguisse aprender a voar, seria arrojado, faria manobras arriscadas e desafiadoras, mas então me olho no espelho e percebo que não passo de um ser apenas caminhante e voar nada tem a ver comigo.
Um pássaro sem céu é exatamente igual a uma caminhante sem chão, tenho certeza que o pássaro também me inveja da mesma forma que eu o invejo às vezes, queria saber voar assim como aquele pássaro gostaria de caminhar, confesso que em todas as vezes que tentei voar que sempre acabei machucado ou então frustrado, e cada vez mais me convenço de que minha especialidade é apenas caminhar, tentei ser o que eu nunca fui apenas na tentativa de fazer uma ilusão se tornar realidade, nunca vou saber voar nem cantar como aquele pássaro, sinto muito por não ter alegrado a mulher do lindo sorriso, sei que fracassei por não ter ao menos planado, mas agradeço ela ter me motivado a tentar, pois a cada queda tentando alçar voou, meus pés ficaram cada vez mais rápidos e minhas pernas mais fortes.
Tentei ser um pássaro e nada consegui apenas o desprezo e a indiferença dela, o seu sorriso se transformou e não teve mais o mesmo brilho de antes, poucos centímetros saí do chão e nada parecido como um voou consegui, apenas um grande salto que não me levou a lugar nenhum, desisti de tentar voar e conformei-me com minhas habilidades natas, hoje já não invejo aquele belo pássaro com suas belas cores e seus belos vôos, o aprecio da mesma maneira que me olho no espelho e vejo minha face de ser um caminhante, posso chegar no mesmo lugar que aquele pássaro apenas pode ser que eu leve um tempo maior, mas ainda assim sem saber voar chegarei onde aquela mulher afirmava que eu nunca colocaria meus pés, mesmo não passando de um ser caminhante.
Eduardo Dias Gonçalves
domingo, 25 de abril de 2010
Letras e passos

Às vezes me sinto cansado e penso em desistir, são tantas letras e tantas palavras, não sei o lugar que devo chegar, minha vida é escrita a caneta que não se deixa rasurar, nem borracha nenhuma pode apagar sem deixar vestígios no papel, várias vezes me perdi, mas sempre me achei, não nego meu medo de me perder novamente e nunca mais voltar, posso partir sem dizer adeus ou então sem agradecer, simplesmente por querer reescrever o que já foi escrito, e o que borracha nenhuma pode rasurar sem deixar marcas, não me preocupo com tempo, pois não passa de linhas preenchidas numa página em branco.
Meu corpo é como uma caneta que vai percorrendo esses caminhos da vida como uma bela caneta desliza suavemente numa folha em branco, minhas letras não são desenhadas com perfeição, nem respeitam as linhas da página, mas tento escrever assim como caminhar o mais reto possível, conforme o tempo se passa mais belas se tornam as letras e mais firmes ficam meus passos, aos poucos reescrevo o meu passado , agora as rasuras são menores assim como a areia do saco as minhas costas, meus passos são mais precisos como o contorno de minhas letras, ainda não sei o final da história que estou reescrevendo, nem o destino que meus pés me levam.
Minha letra agora é mais firme e meus passos mais delicados, meus dedos doem ao segurar a caneta e a bolsa as minhas costas já não é tão pesada, mas o cansaço faz meus pés doerem, a dor dos pés e das mãos me deixam sem animo para caminhar e escrever, olho para o horizonte e nada vejo assim como o terço final da minha página, nenhum dos dois tem um final, e a única coisa que me faz continuar é a sensação de ter chego ao destino e poder ler o final da história, não tenho idéia de onde vou chegar e nem se terá um bom final, apenas continuo a caminhar e escrever.
Acredito que ainda tenho muitas páginas em branco para escrever e muitos kilometros para percorrer, quero tornar essa grande caminhada um belo conto com um final se não belo ao menos gratificante, a areia do saco as minhas costas ainda escorre e marca meu caminho, sinto-me perdido na jornada, assim como nas minhas palavras, não sei se vou conseguir voltar ao foco ou então à estrada principal, mas continuo a caminhar e escrever. Ainda não reli minha história nem voltei ao lugar de onde parti, pois meu destino final ainda não sei bem como vai terminar, tenho medo de não conseguir suportar a dor dos meus dedos e assim não terminar de escrever o último parágrafo, assim como não chegar onde meus pés cansados insistem em me levar.
Eduardo Dias Gonçalves
Abraço
Quero dar-te um abraço, quero enlaçar meus braços em volta do teu corpo e te apertar forte, ficar por vários minutos apenas te apertando e te sentindo junto a mim, não vou te pedir para ser recíproco comigo porque tenho certeza que não iras resistir à tentação de um abraço, um simples gesto que possui uma energia gigantesca capaz de carregar instantaneamente qualquer alma cansada, capaz de trazer forças de um jovem a um velho, ou então de transformar um covarde em um guerreiro, apenas um abraço é capaz de amolecer qualquer coração amargurado, sinto falta de te dar um abraço.Ainda lembro-me das sensações do teu abraço, aquelas sensações que me deixavam leve e confortável e me faziam dormir, do cheirinho de colo e do calor dos nossos corpos, quero aquele passado novamente, quero aquela troca de carinho entre a gente, gostaria de te propor um simples acordo, queria apenas fazer uma troca, uma simples troca de abraços por alguns minutos e só, nada mais do que um simples abraço, aquele que nos dávamos quando éramos próximos, ou então quando nos consolávamos, poderia ser até o do tipo de alegria, mas e se nenhum desses ainda restou entre nós, que seja apenas um abraço de partida.
Os bons momentos passaram os maus também, e é verdade que muitos deles foram esquecidos com o tempo ou então de certo enterrados, mas ainda restou à lembrança daquele abraço que me contagiava, boas lembranças elas são e bons abraços eram aqueles, nas noites de solidão sinto tanta falta daquele abraço que tento me consolar apenas abraçando o travesseiro, busco teu cheiro nele e não o encontro, é realmente verdade que desisti de voltar a encontrá-lo, mas não posso negar que ainda sinto falta dele.
Ainda tenho comigo as boas lembranças do teu sorriso acompanhado de um abraço, como era bom te ter ali, te dar proteção e trocar energias, pelas lembranças posso até sentir como se fosse real, ainda me lembro de como que eu te abraçava no inicio, eu era duro e sem jeito, mas sempre intenso, depois daquele abraço deitava em teu colo e enquanto você mexia no meu cabelo adormecia sentindo teu cheiro, ainda acordo a noite assustado com os más lembranças, e para acalmar-me apenas abraço o travesseiro e imagino novamente aquele abraço, pequeno e carinhoso.
Hoje compreendo que nossos abraços pertencem a outros corpos e que nunca mais se encontrarão, então acabo por chorar, mas não com lágrimas de mágoas ou ressentimentos, mas lágrimas de não ter aproveitado melhor o teu último abraço, aprendi contigo como é bom abraçar, mas ainda não deixo-me ser abraçado, me sinto estranho em outros braços, não sinto as mesmas sensações que tinha quando você me abraçava, não sei se eram verdadeiras e sinceras, mas mesmo assim ainda procuro em outros corpos a medida do teu abraço, não sei exatamente o numero dele, apenas sei que tem uma medida pequena e que carrega um lindo sorriso.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de Cândido Gonçalves
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Retratos do amanhâ
Atrás de algumas delas, datas e escritas de lugares, pessoas, viagens, enfim de passados vividos, não me vejo em nenhuma delas nem reconheço nenhum lugar que essas belas fotos monocromáticas revelam, logo lágrimas me escorrem pela face e apesar de estar olhando fotos antigas vejo nelas o futuro, vejo meu rosto com as marcas do tempo, não sei direito quem são as pessoas, apenas vejo meu rosto estampado ali, corro para o banheiro e me olho no espelho, minha pele carrega leves marcas de expressão, mas como pode ser possível? A pessoa nas fotos é exatamente igual a minha, vejo nos olhos dele o mesmo olhar que possuo, olho atrás do retrato leio alguns rabiscos, nada me é familiar exceto a data de 1962, não sei o porquê de apenas a data me ser familiar.
Continuo a explorar a velha caixa de metal, no meio de tantas outras acho outra foto com meu rosto, mas numa época que era muito jovem, com estatura de menino, mas o olhar ainda era o mesmo, atrás a data não correspondia a minha idade atual estava confuso e nostálgico, o passado tão distante estava ali me mostrando o futuro, avisando-me que o tempo passa e não volta mais, apenas fica nas boas lembranças e nas ações tomadas hoje, minhas lágrimas ainda correm pela minha face e fazem meu coração bater descompassado e rápido, então sentado ao chão com as fotos espalhadas em minha volta, examino cuidadosamente o meu passado, vejo erros terríveis e acertos perfeitos.
Meu choro parece não ter fim, lembranças me inundam a alma misturando sentimentos, não entendo as imagem que passam diante dos meus olhos, o presente se mistura ao passado e faz eu me sentir ainda mais vivo, minhas ações de hoje não desfazem as do passado e tampouco me tornam alguém melhor hoje, mas me mostram que posso mudar o rumo delas, nunca vou ser um exemplo a ser seguido, mas posso ser um dia lembrado por alguma ação, minhas qualidades são natas mas mesmo assim ainda tenho muito o que aperfeiçoá-las, algumas simples fotos do passado me transmitem a realidade de que passado, presente e futuro estão tão intimamente ligadas que apenas formam uma única história de vida.
Essas fotos do passado apesar de antigas me ensinaram uma lição importante do futuro, que meus pais sempre me alertaram, mas nunca dei ouvidos. Então uma velha caixa é capaz de me impor verdades que sempre foram colocadas a minha frente através de simples fotos antigas, então olho para meu futuro vivido no passado e tenho oportunidade de ver o que deu certo e o que não deu, tenho uma chance de mudar o rumo das minhas ações e manipular o futuro, para quem sabe um dia ser lembrado por boas ações, assim como fez meu futuro no passado, ou então meu futuro no presente, complicado de entender? Simples, olho para meu pai hoje e me vejo amanhã e para me ver mais além é só olhar as fotos de meu avô, pois eles são o meu passado, presente e futuro independente de gerações.Eduardo Dias Gonçalves
terça-feira, 20 de abril de 2010
Meu porto seguro

Sinto-me perdido na imensidão desse mar, estou à deriva procurando um bom lugar para ancorar e construir meu porto seguro, mas tenho consciência dos perigos de escolher o lugar errado, não posso construir num pântano nem em cima de areia, meu navio carrega fotos e cartas de portos que passei, carrego algumas lembranças que ficaram para trás e que nunca foram esquecidas, algumas delas foram responsáveis por grandes naufrágios, mas deles todos escapei com vida e aqui estou a contar a vocês, que por mais que eu tenha cruzado mares e oceanos, enfrentado tempestades e ondas terríveis, ainda permaneço a procura de um bom lugar para construir meu porto.
No horizonte vejo “terra a vista”, não tenho nem idéia dos perigos das terras que vou aportar, mas pelo que sinto gostaria que fosse minha moradia, vendo rapidamente noto que é um lindo arquipélago que possui uma bela ilhota ao seu lado, me parece fazer parte da costa apenas com uma superfície de água separando-as, minha aproximação é lenta, não nego que tenho medo de descer âncora e nunca mais partir, minha vida foi sempre navegar e acredito ser um marujo muito novo para aportar definitivamente, a vista é linda e encantadora, o perfume de suas flores traz uma sensação de bem estar, com um clima aconchegante é impossível não querer aportar.
Ao adentrar nessa belíssima ilha, começo e descobrir que alguém já houvera aportado ali, vi alguns danos e cicatrizes de marinheiros que deixaram suas marcas, mas que simplesmente sumiram ou então deixaram belas jóias para trás, não sei nada do terreno que estou adentrando, mas não tenho vontade de voltar para meu barco e partir, não sou inconseqüente então avanço devagar, não sinto medo pelo simples fato de estar fascinado com um possível lugar para construir meu porto, ainda não tive contato com nenhum nativo, mas adoraria conhecê-los pois tenho certeza que são interessantes, apenas pelo fato de preservarem essa bela ilha e sua ilhota.
Tantos mares e oceanos naveguei e é justamente próximo ao porto que construí meu navio e que dei meu primeiro adeus, deixando meu passado para trás e jurando nunca mais voltar, que encontro essa linda ilha que me deixou sem vontade de continuar explorando outros possíveis lugares, para quando chegar a hora aportar definitivamente, não quero apenas acampar e assim que clarear o dia levantar âncoras e zarpar para nunca mais voltar, nem sou um pirata que invade e saqueia o que lhe for conveniente, mas sim um marinheiro que quer apenas construir seu porto num lugar seguro e que se compromete a guardar com unhas e dentes o seu refúgio de qualquer mal que possa acontecer.
O luar dessa grande ilha é esplendoroso, me entorpece e através de seu reflexo na água e possível ver detalhes que muitos marinheiros presenciaram mas poucos entenderam a grandiosidade de sua beleza, seu perfume é embriagante carregando tons de bergamota e hortelã, estar nessa ilha traz uma sensação de bem estar e uma leveza na alma, me sinto a vontade pois essa ilha e sua ilhota assim como eu e meu navio, passamos toda nossa vida apenas cercados por água, ainda não sei se esse vai ser o meu verdadeiro porto seguro, mas com certeza sei que é uma ótima escolha.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cândido Gonçalves
O caçador de sonhos

Percorri milhares de kilometros sempre a pé, nas mãos um cajado feito de cerno de lei para auxiliar na minha peregrinação e me escorar nas horas de cansaço, alem de uma velha bolsa nas costas com um pouco de água e carne seca que me trazem energia para caminhar muito e descansar pouco, carrego comigo uma faca e um barbante para fazer as armadilhas dos sonhos, para caçar sonhos é preciso muitas virtudes e determinação é a mais essencial delas, as armadilhas tem que serem cuidadosamente preparadas, pois os sonhos são extremamente rápidos.
Para um bom caçador não é preciso barbante ou faca para apanhá-los, eles carregam todas as armas necessárias dentro de si, eu como sou apenas um garoto passo alguns dias com variados mestres, aprimorando minhas técnicas, minhas habilidades como caçador não são extraordinárias, mas são ousadas apesar de imprevisíveis porque nem sempre funcionam, mas se funcionarem um dia com certeza serão capazes de capturar ótimos sonhos.
Conheço muitos grandes e velhos mestres, mas foi com um pequeno e jovem que aprendi a minha melhor técnica, com ele que adquiri a minha melhor arma a virtude da paciência, ela sempre esteve comigo, mas com o passar do tempo foi se escondendo dentro de minha pessoa, para ser um bom caçador a observação é um quesito importantíssimo, e uma boa observação requer muita paciência, quando somos muito jovens observar e ser paciente são habilidades natas de nosso ser.
Aprendi com esse jovem mestre que antes de saber de sonhos, aprimoramos nossas técnicas natas de caça, fortalecemos nossas virtudes de paciência e observação e aos poucos começamos a caminhar, vagarosamente e desastradamente então quando uma queda nos acontece, nossa virtude da paciência se torna fundamental e se faz presente, logo observamos como fazem os outros e continuamos a dar nossos passos sempre em frente, sem saber que nossos pais nos preparam para sermos grandes caçadores, meu pequeno mestre não possui mais do que três anos de idade, mas me ensinou técnicas que levei anos para perceber.
O medo pode ser farejado a kilometros de distância e observo que meu jovem mestre não parece se intimidar com nada que acontece em sua volta, então aprendo que quando temos nosso espírito jovem o medo não passa de apenas uma sensação, que pode ser minimizada ou agravada dependendo de nossa observação, quanto mais firmes são nossos passos para mais longe caminhamos e mais corajosos se tornamos para caçar sonhos, mas a peregrinação só esta pronta para começar após nossas virtudes estarem prontas para serem colocadas a prova, e nossa aptidão de observar esteja aguçada.
Olho para as minhas mãos e vejo marcas do tempo já não sou mais um garoto, e então decido olhar para trás e vejo um grande caminho percorrido com meus próprios pés, sinto meu cajado me ajudar mais do que antes a continuar a caminhar, na velha bolsa as minhas costas ainda tenho a carne seca e um pouco de água, já não carrego mais uma faca e barbante, minha visão tornou-se aguçada como uma águia e observadora como um puma, minhas virtudes estão sendo colocadas a prova a todo instante, meus passos são firmes e enérgicos, ainda sou um caçador de sonhos e passei de aprendiz a mestre, pois caminhar a caça de sonhos é apenas uma escolha.
Eduardo Dias Gonçalves
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Estratégia

Foi o teu carinho que me chamou minha atenção, muitas vezes cruzei por ti e nada mais do que poucas palavras e trocas de olhares tentei, mas eu sabia que aconteceria, e tive paciência então fiquei esperando a oportunidade passar novamente por mim, tinha certeza que teria outra chance, pensei que seria diferente, que bom que não foi, que foi assim de improviso, que nada do que pensei deu certo, porquê se fosse do jeito que imaginei pareceria um teatro e não uma conquista, te conquistei aos poucos, mas fui conquistado em instantes, por teu jeito de me tratar, nas tuas palavras senti o calor de um colo e o tempo passou e quando me dei conta já era tarde, mais uma vez segui meu coração deixando a razão totalmente de lado.
Queria mais uma conquista, e a situação saiu do meu controle não consegui evitar e acabei me apaixonando, notei isso quando ao acordar lavar o rosto e olhar-me no espelho estava estampado nas minhas feições, eu realmente estava apaixonado e não podia mais voltar atrás, sempre usei o jogo da sedução a meu favor divertia-me flertando, e incorporando personagens de contos de fadas, mas contigo foi diferente, comecei o jogo e quando percebi de jogador eu passara para peça, me perguntei várias vezes onde estava o raciocínio lógico, as estratégias, o blefe, confesso que tentei o plano B mas ao tentar uma saída estratégica cai no meu próprio revés.
Comecei tão confiante que acreditava fielmente na minha estratégia, seria apenas mais uma conquista como tantas outras, poucas jogadas e xeque-mate, pronto, fim do jogo, mais uma peça derrubada no tabuleiro, mais uma conquista e o sabor da manipulação, não tinha plano B, pois tudo estava ensaiado na minha imaginação, daria certo nas primeiras jogadas, mas havia um detalhe: esqueci que o que manipula o coração é a mente, mas se o coração parar a mente também para, e o jogo da sedução tem-se riscos imprevisíveis, manipular o jogador é fácil, mas mais fácil ainda é ser manipulado pelo próprio coração.
Quando percebi que não tinha dado nenhum blefe nem jogado racionalmente, era tarde e o jogo tinha tomado proporções que eu nunca tinha estado, entrava cada vez mais num território que me deixava cada vez mais irracional, mas apesar disso sentia-me confortável e protegido, a vitória já não me era a maior importância, mas sim a permanência no jogo e o bem estar que isso me proporcionava, em nenhum momento me senti derrotado, apenas certo de que estava fugindo do meu controle e que por mais que eu quisesse ganhar, insistia em permanecer no jogo.
De sedutor a seduzido, nunca gostei tanto de perder um jogo como agora, não me importo se me tornei uma marionete nas mãos dela, nem se o “raciocínio lógico” não vai afetar em nada esse jogo, nossas partidas não tem mais horários nem dias, são separadas por uma distância enorme o que torna nosso jogo muito mais intenso e prazeroso, nossas partidas as vezes são curtas, outras longas até o amanhecer, nela não existem blefes nem jogadas racionais e sim provocações e flertes, a cada partida terminada fico impaciente para a próxima e durmo pensando, não em estratégias e planos, mas sim em poder olhar nos olhos dela e sentir o tom de sua voz, não tenho jogadas ensaiadas, o jogo é apenas pretexto para estar ao lado dela, se é amor não sei ainda, mas com certeza é a minha paixão.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cândido Gonçalves
terça-feira, 13 de abril de 2010
Anjos guerreiros

Nessa noite sonhei com anjos, um sonho muito prazeroso que não me deixava acordar, eram anjos lindos e nada tinham a ver com os que vemos em paredes de igrejas e em santuários, andavam por todos os lados, vários deles e nenhum deles tinham asas ou voavam, mas todos eram tentadores e muito belos, carregavam uma pureza no olhar e uma serenidade na alma, não estavam eles num jardim florido nem em um grande gramado, usavam roupas brancas, mas não portavam harpas e nem entoavam melodias, promoviam a cura através de suas mãos e seus dons eram limitados a cada um, alguns possuíam especialidades mais desenvolvidas e outros mais jovens ainda aprendendo a desenvolver ou aprimorando suas técnicas.
Vi anjos jovens e velhos, nenhuma canção escutei nem vi milagres serem operados, todos carregavam semblantes de muita tranqüilidade e essa tranqüilidade me deixava calmo, aprendi que paciência é uma virtude que pode ser conquistada ou até mesmo imposta, que o tempo passa e traz consigo características que sem percebermos a cada respiração absorvemos um pouco, e quanto mais tempo passamos próximos desses anjos mais leves e puros nos tornamos, todos eram muito zelosos e cautelosos, durante esse sonho vi inúmeras curas e recuperações.
Nenhum anjo alçou voou nem irradiou luzes de suas auréolas, mas todos possuíam áureas brilhantes e encantadoras, tinham uma leveza na voz que eram capazes de fazer adormecer mesmo já estando em sono pleno, consolavam com palavras certas até quem os ignoravam ou então os maldiziam, todos eles possuíam uma virtude essencial para serem anjos, a solidariedade, e sem distinção de idade, sexo ou experiência todos eles eram humanitários, e acreditavam na cura ás vezes mais do que os próprios enfermos.
Dedicados e empenhados a dividirem seus dons, doando as suas vidas em prol de outras e sem condenar ou fazer distinção, dispostos a dividirem suas energias em bem comum tornavam o ambiente iluminado, se a escuridão se fazia presente esses mesmos anjos com seus escudos e brandindo espadas se transformavam em anjos guerreiros, destemidos e incansáveis eram estes os anjos dos meus sonhos, anjos que para alguns foram forjados pelas mãos de Deus e por outros pela sabedoria dos homens, não importando suas procedências ou seus brasões a única certeza era que me sentia totalmente confortável e protegido por suas mãos, os quais nada sabia a respeito.
Chegava à hora de acordar e apertava mais meus olhos a fim de continuar ali apenas observando o trabalho desses anjos, suas energias eram acentuadas a cada nova cura ou sorriso, durante meu sonho passei dias e noites nesse lugar apenas os observando, e todos trabalhavam sem parar, exercendo seus dons e suas habilidades sem cobrar nada em troca nem aparentar cansaço, sentia as vibrações de amor e de esperança no ar, e ao acordar percebi que desde o momento em que nascemos somos resguardados por esses mesmos anjos guerreiros.
Em tributo as equipes de enfermagem, meu agradecimento!!!
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de: Cândido Gonçalves
terça-feira, 6 de abril de 2010
A vista da janela

Minha visão é limitada apenas por uma janela, e por entre ela vejo pessoas passando e circulando, gente de todo o tipo e classes sociais, vejo meninos e velhos, doentes e sãos, altos e baixos, e eu aqui deitado imaginando o que será os pensamentos deles, quais serão seus sonhos, aonde vão com tanta pressa, para onde vão e o que será que farão, como vivem e o que fazem, tanta pressa e eu aqui apenas os observando e especulando suas vidas.
Não tenho idéia aonde chegarão, mas sei que com certeza vão a algum lugar carregando seus objetivos, várias histórias vi passar e com muitas aprendi algumas coisas, mas mesmo assim tenho uma curiosidade enorme em conhecer cada um desses figurantes da vida, quero poder absorver um pouco de cada vivência, saber detalhes de como vivem e onde moram, quero conhecer suas conquistas e seus méritos.
Cada dia que passo a olhar pela janela adquiro novas experiências, e dou valor a meu real estado, então entendo que cada vez mais correta é a afirmação de que na vida só temos apenas duas escolhas, podemos escolher o lado ruim ou o lado bom, basta apenas arcarmos com os prejuízos de cada escolha, percebo também que independente da escolha sempre teremos algum tipo de pena, pois na novela da vida não existe nada de plenitude, apenas roteiros variados e com histórias semelhantes.
Aprendi com alguns protagonistas que as dificuldades poderão ser passageiras ou permanentes, depende do roteiro e das escolhas, e eu aqui sendo um mero espectador da novela da vida, acabo tendo simpatia e afeição por alguns personagens e desprezo por outros, me identifiquei com alguns e aprendi muito com outros, e a cada dia que se passa nessa história mais personagens se revelam e mostram suas características, tanto boas quanto ruins, começo a torcer por alguns vibrando junto nas vitórias ou chorando nas derrotas.
Emoções a flor da pele e ânimos exaltados, uma espera onde o tempo demora a passar, cada segundo parece minuto, e cada dezena de minutos é capaz de tornar-se uma eternidade, e quando perguntado o que penso a respeito dessa situação e se não fico frustrado por ter apenas uma janela para olhar logo respondo que:- Ainda bem que tenho uma ótima vista e não posso me queixar de solidão, pois tenho ótimas Companhias.