domingo, 25 de abril de 2010

Letras e passos


Sou tão apegado ao passado que às vezes quero esquecer o presente e nem pensar no futuro, não sei o que vou fazer daqui a dois minutos ou dois anos, mas tenho certeza do que fiz há dois minutos ou dois anos atrás, sei que minha maior preocupação hoje é reescrever o passado da simples forma de viver intensamente e da forma mais verdadeira, quero apenas viver o real, o palpável, o suficiente para reescrever minha história, pesos e ressentimentos aos poucos vão se desprendendo das minhas costas como um saco de areia furado, quanto mais caminho, mais leve esse saco se torna, sei que a areia dele nunca se esgotará, quanto maior meu cansaço menor o peso do saco de areia que carrego. Os pequenos grãos que deixo para trás nesse caminho não são contados como uma perda de bagagem, mas sim como uma referência do caminho que percorri para chegar onde estou hoje.
Às vezes me sinto cansado e penso em desistir, são tantas letras e tantas palavras, não sei o lugar que devo chegar, minha vida é escrita a caneta que não se deixa rasurar, nem borracha nenhuma pode apagar sem deixar vestígios no papel, várias vezes me perdi, mas sempre me achei, não nego meu medo de me perder novamente e nunca mais voltar, posso partir sem dizer adeus ou então sem agradecer, simplesmente por querer reescrever o que já foi escrito, e o que borracha nenhuma pode rasurar sem deixar marcas, não me preocupo com tempo, pois não passa de linhas preenchidas numa página em branco.
Meu corpo é como uma caneta que vai percorrendo esses caminhos da vida como uma bela caneta desliza suavemente numa folha em branco, minhas letras não são desenhadas com perfeição, nem respeitam as linhas da página, mas tento escrever assim como caminhar o mais reto possível, conforme o tempo se passa mais belas se tornam as letras e mais firmes ficam meus passos, aos poucos reescrevo o meu passado , agora as rasuras são menores assim como a areia do saco as minhas costas, meus passos são mais precisos como o contorno de minhas letras, ainda não sei o final da história que estou reescrevendo, nem o destino que meus pés me levam.
Minha letra agora é mais firme e meus passos mais delicados, meus dedos doem ao segurar a caneta e a bolsa as minhas costas já não é tão pesada, mas o cansaço faz meus pés doerem, a dor dos pés e das mãos me deixam sem animo para caminhar e escrever, olho para o horizonte e nada vejo assim como o terço final da minha página, nenhum dos dois tem um final, e a única coisa que me faz continuar é a sensação de ter chego ao destino e poder ler o final da história, não tenho idéia de onde vou chegar e nem se terá um bom final, apenas continuo a caminhar e escrever.
Acredito que ainda tenho muitas páginas em branco para escrever e muitos kilometros para percorrer, quero tornar essa grande caminhada um belo conto com um final se não belo ao menos gratificante, a areia do saco as minhas costas ainda escorre e marca meu caminho, sinto-me perdido na jornada, assim como nas minhas palavras, não sei se vou conseguir voltar ao foco ou então à estrada principal, mas continuo a caminhar e escrever. Ainda não reli minha história nem voltei ao lugar de onde parti, pois meu destino final ainda não sei bem como vai terminar, tenho medo de não conseguir suportar a dor dos meus dedos e assim não terminar de escrever o último parágrafo, assim como não chegar onde meus pés cansados insistem em me levar.
Eduardo Dias Gonçalves
Foto de : Graziela Sasso

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