quinta-feira, 25 de março de 2010

A fortaleza do coração


Um dia morei em um castelo, ele era perfeito, de grande beleza, e gigantesco, possuía um grande fosso para protegê-lo, inúmeras dependências, as paredes eram grossas e fortes, nada poderia derrubá-lo, nem chuva nem vento, dentro dele estava guardado todos os meus pertences e tesouros, várias intempéries meu castelo sofreu, algumas de tão fortes acabaram abalando apenas algumas telhas, mas nenhuma chuva ou ventania foi capaz de fazer meu castelo estremecer.
Eu possuía mais de cem lanceiros guardando-o, tinha duas dúzias de soldados resguardando cada flanco, e ao redor alguns dos meus melhores cavaleiros, faziam rondas durante todas as horas do dia e da noite, meu castelo era tão bem protegido que ninguém entrava nem saia sem a minha autorização, eu tinha total controle sobre qualquer acontecimento que ocorria, meu castelo era totalmente inabalável e extremamente seguro.
Vários inimigos tentavam sucumbí-lo de alguma forma, e estavam sempre procurando alguma brecha para adentrar dentro dele e conseguir tomar minhas posses, mas todas as tentativas e planos sempre foram em vão, ou meus soldados os esmagavam antes mesmo de tentar, ou simplesmente meus arqueiros os faziam recuarem com inúmeras baixas nas suas tropas, sempre escolhi soldados mais velhos e com inúmeras experiências em batalhas, pois soldados jovens são ingênuos e vulneráveis.
Mas apesar de estar protegido por grossas paredes de pedras, centenas de guerreiros e vestindo uma armadura metálica perfeita, forjada sob medida pelos melhores artesãos da época, ainda assim eu era tão inocente como uma criança, tão racional como um jovem e tão vulnerável quanto um velho, apesar de eu aparentar ser sábio, forte e destemido, a verdade exalava pelos meus poros, no meu intimo eu sentia-me burro, fraco e covarde.
Eu era capaz de liderar duas vintenas de soldados e conquistar qualquer território, minhas baixas sempre foram poucas, pois meus bravos guerreiros sempre acreditavam em minhas palavras, e iam as lutas com a certeza de voltarem para suas mulheres e filhos, com mais uma batalha vencida, meu estandarte tremulava ao vento enquanto soldados entoavam canções, bradando o meu nome; Não acreditávamos em deuses ou magias, apenas no fio de espadas, lanças, machados e sabíamos que somente duas coisas poderiam nos proteger: nosso companheiro à direita e nosso escudo a esquerda, meus inimigos temiam meus exércitos.
Dominei vários territórios, mas nunca pisei em nenhum deles, apenas os conhecia por mapas e cartilhas, ganhei inúmeras batalhas sem nunca pegar numa espada, matei muitos inimigos, mas nunca senti o cheiro de sangue e de corpos apodrecendo, dizimei povoados sem ao menos vê-los, fui mais longe do que qualquer homem consegue caminhar a pé, e conquistei tudo isso sempre de dentro de minha fortaleza, sempre acreditei que a sorte favorece os destemidos e baseado nisso sempre acreditei na vitória de meus guerreiros, mas minha maior guerra era comigo mesmo.
Apesar de ter tudo me sentia completamente vazio, invejava meus soldados e suas esposas a brincarem com seus filhos, os camponeses felizes com suas humildes vidas, e eu mesmo tendo muitas mulheres em minha cama me sentia um solitário, um fracassado, algo faltava em minha vida, e não era a vitória de batalhas, nem a conquista de territórios, eu tinha um reino inteiro e nada me satisfazia, eu tive abraços sem calor, beijos sem paixão, e carinhos sem doação,também fui traído algumas vezes, mas ganhei inúmeros reinos e nunca perdi uma batalha, mas a minha batalha interna estava me matando aos poucos, estava me enfraquecendo cada vez mais.
Minha vulnerabilidade estava ficando cada vez mais exposta, todo o dia ao acordar, sentia cada vez mais essa dor me corroendo, essa cólera me desmotivava, meus olhos já não tinham mais brilho, e cada dia se passava e o sentimento de solidão aumentava cada vez mais, então certa vez ao sair para examinar meus soldados e vistoriar meu contingente, passando por uma das torres vi o que faria meu castelo desabar.
Era uma mulher com poucos anos, já não era menina, mas tinha uma inocência nos olhos claros, dona de uma pele clara, cabelos lisos e dourados,
mais bela que ela duvidava existir e se existisse não me importava, pois nem quando antecedia minhas maiores batalhas meu coração acelerava tanto quanto naquele momento, desci as escadas rapidamente para ir até ela, mas quando cheguei não a achei, procurei em todos os cantos, perguntei a todos quem era aquela mulher que eu tinha visto, mas ninguém sabia me dizer algo a respeito.
Sem saber nada dessa mulher continuei a procura dela, e quando a achava ao tentar aproximar-me dela como em um passe de mágica ela desaparecia, e deixava somente seu perfume no ar, um perfume de jasmim com lavanda e rosas, um cheiro único e embriagante, passei noites e noite sonhando com ela, quando alguma mulher passava procurava em seu rosto os traços dela, quando via algum jasmim me lembrava do cheiro dela, quando alguma mulher de cabelos claros percorria pelo meu castelo eu corria para ver se não a achava, dias e dias se passavam e meu coração parecia cheio de vida, meu sangue pulsava em minhas veias, nunca havia me sentido tão vivo.
E apesar de eu estar totalmente protegido em minha fortaleza, minha alma estava totalmente entregue a uma mulher que eu nem sabia o nome, apenas sabia que ela era a mulher mais linda de todo o reino, e que por ela seria capaz de trocar todas as minhas conquistas em troca do seu amor, um homem pode ser tão forte quanto uma rocha, mas é tão vulnerável quanto um pássaro sem asas, pode ter todo o dinheiro e poder, mas nada seria sem um coração que pulsa dentro do peito, era primavera e todas as flores desabrochavam e exalavam seus perfumes, e neles era possível perceber o cheiro de jasmim, o cheiro dela, neste ponto eu estava com a parte mais vulnerável de todo o reino nas mão de uma mulher, meu coração.
Recrutei inúmeros soldados para procurá-la, mas todas as tentativas sempre fracassavam, nenhuma informação ou pista, apenas um aperto cada vez maior no meu peito, será que tudo não passou de uma ilusão? Um sonho? Será que eu estava ficando louco? Apesar das dúvidas eu ainda tinha esperanças de achá-la, eu tinha certeza que ela era o que me faltava, o que me completaria, dias e meses se passaram e nada de achá-la, várias tentaram se passar por ela, mas todas não se passavam de mentiras e pretensões, minhas esperanças estavam chegando ao final.
Estava começando a me convencer de que tudo realmente foi uma ilusão da minha mente, de que não tinha visto o que eu imaginava ter visto, de que isso foi apenas uma carência minha se materializando no meu pensamento, mas quando sentia aquele cheiro, era como se fosse um feitiço ou algo parecido, mesmo não acreditando em magia, eu a via na minha frente, mas não podia tocá-la nem escutá-la, apenas a via ali na minha frente a poucos passos de distância. E entendi o porque meus guerreiros tinham aquele brilho nos olhos e aquela vontade de sempre vencer e voltar para casa, então percebi que era o amor que movia os meus soldados e não as minhas palavras e nem suas medalhas, foi nesse instante que tomei uma das decisões mais importantes da minha vida.
Apesar de eu ainda não ter vencido a guerra mais importante da minha vida, ainda estava disposto a morrer tentando, pois enquanto eu não conseguisse vencer a mim mesmo, e achar a minha outra metade não desistiria nunca, muito tempo se passou e eu ainda não a achei, venci muitos medos e pesadelos íntimos, já não me acho mais burro, fraco e covarde, mas ainda não encontrei o meu amor, ainda moro num castelo e sinto o cheiro dela, também sonho a todo instante com essa mulher e por ela não perco o brilho no olhar, nem a esperança de um dia achá-la, e se achá-la trocarei todo o meu reino apenas por um amor sincero.

Eduardo Dias Gonçalves 25/03/2010

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